sábado, 15 de novembro de 2014

Onde o Vento Faz a Curva - Capítulo 1



Lu Lopes

O vento fazia a curva na casa de Sara Lima.

Não era um exagero. Lucas Santos observou esse fenômeno minunciosamente durante duas semanas e já não podia se enganar. Era o único lugar naquela maldita cidade onde o vento soprava. Em toda São Miguel não era possível sentir uma única brisa, de dia ou de noite. Apenas temperaturas próximas aos quarenta graus, como se o Inferno houvesse aberto uma filial na cidade e estivesse aquecendo o forno a todo vapor. Provavelmente para cozinhar todos aqueles comerciantes oportunistas que haviam triplicado os preços de ventiladores e ar condicionados.

Mas isso não afetava a sortuda Sara. A qualquer momento em que passasse pela calçada de sua casa era possível observar a brisa soprando sobre seu bem cuidado jardim, sombreado por altas mangueiras. Para unir o insulto à injúria, delicados sinos de vento espalhavam-se nos galhos das mangueiras e durante todo o dia – e noite – sopravam a música mais celestial. Uma provocação que rendia olhares indignados e invejosos das boas pessoas da cidade que não entendiam o que aquela casa e sua dona possuíam de especial. Pacto com o Demônio poderia estar envolvido.

De dentro de sua oficina, no outro lado da rua, Lucas mantinha um olho no motor do Fiat de seu Arnaldo e outro no quintal da infame Sara.

- Sabe, o seu Arnaldo realmente precisa do carro hoje.

Ele resmungou algo irritado e rezou pra que sua cunhada pegasse a dica de seu mal humor e se afastasse. Não que acreditasse que teria essa sorte. Com 1,60 de pura teimosia, mãe de dois pequenos demônios e um terceiro a caminho, Ana Clara não recuava diante de nada.

- Isso foi uma resposta ou um grunhido? Porque estou um pouco confusa aqui.

Outro som, dessa vez semelhante a um rosnado, deixou sua boca. O som foi cortado abruptamente quando uma jarra de suco gelado foi empurrada em sua cara. Lucas se estendeu para a jarra como um homem condenado no deserto.

A jarra foi puxada de volta.

- Não tão rápido. Precisamos entrar em um acordo aqui.

Ele fechou a cara.

- Está me chantageando com a merda de uma jarra de suco?

- A merda de uma jarra de suco de manga, muito, muito gelado.

A carranca dele se aprofundou. Tinha um fraco por manga.

Pressionando a vantagem, Ana Clara encheu o copo que levava na outra mão e levou aos lábios com um gemido de êxtase. Um segundo depois a jarra foi arrebatada de sua mão. Os lábios dela franziram de desgosto quando ele bebeu direto da jarra.

- Ew! Não te ensinaram a ser civilizado no exército?

Ele lhe deu um olhar que indicava que a resposta devia ser óbvia.

Ela o observou terminar o suco com um olhar atento.

- Sabe, as mulheres de hoje possuem telefone, email... Inclusive somos acessíveis a contato pessoal.

Ele devolveu a jarra vazia com um olhar em branco e voltou a se concentrar no motor. Definitivamente não estaria mordendo essa isca.
Houve uma pausa de misericordioso silêncio. Por dez segundos.

- Porque não atravessa a maldita rua e fala com ela? – irritação coloriu sua voz – Está vigiando sua casa há semanas!

- Não sei do que está falando. – Sabia. Mas não iria admitir. Concentrou-se no motor e deixou que a voz de sua cunhada se convertesse num irritante ruído de fundo. Uma arte que aperfeiçoou no exército e resultou em que fosse chutado de lá o mais rápido possível.

Após alguns minutos sua concentração era tal que, de fato, não a ouviu sair. Mas seus olhos continuaram viajando para casa de Sara. A irritante Sara.


A irritante Sara estava no ateliê improvisado de sua casa lixando alguns caixotes de madeira para montar uma estante artesanal. Reciclar coisas antigas ou subutilizadas era um hobby que sempre desejou transformar em profissão e finalmente estava próxima de realizar esse objetivo. Que pudesse fazê-lo com o dinheiro herdado de seu abusivo, canalha infiel e felizmente falecido marido era apenas a cereja do bolo.

A seus pés um miado irritado chamou sua atenção. Uma bola de pelo laranja e branco lambeu uma pata enquanto a fulminava com um olhar aborrecido.

Ela olhou para ele um momento e começou a tirar o pó do caixote. Outro miado insistente; outro olhar aborrecido.

Sara bateu o pé.

- Sei! Estou quebrando a primeira lei dos Cinco Mandamentos de Sara. Alguns dias simplesmente são mais difíceis que outros.

O gato chicoteou o rabo de um lado para outro, nem um pouco convencido e começou a encarar.

Eles estavam habituados a essa competição de olhares. E Sara sempre perdia.

- Ok! – resmungou. – Tenho que fazer uma pausa de todo modo.

O animal se aprumou e seguiu na frente com seu andar desigual. O coração dela apertou com a evidência da violência que o animal havia sofrido, mas ignorou a pontada. Ele era um sobrevivente. Assim como ela.

Seguiu o gato até a área de serviço onde guardava a ração e o serviu com um afago. Depois entrou com prazer na espaçosa cozinha e preparou um sanduíche. Adorava a casa velha e ampla, de inspiração colonial. Amava as inúmeras janelas e a luz natural. Havia se mudado há dois meses e ainda estava no processo de transformá-la num lar. Mas, dia a dia, o lugar ficava cada vez mais charmoso. Um paraíso que, igual a todos os outros, tinha uma serpente.

Dando uma mordida distraída no sanduíche, Sara se acomodou no sofá alinhado estrategicamente sob a maior janela da sala e observou a oficina do outro lado da rua. O mecânico estava inclinado sob o capô de um carro vermelho, expondo um traseiro espetacular num jeans tão ajustado que poderia ser processado por exposição indecente.

Sério, aquilo não prejudicava a circulação?

Deu outra mordida e continuou a apreciar a paisagem. Não era culpa dela se o cara insistia em desfilar em frente de sua janela. Inicialmente constrangida com o próprio interesse, ela agora o observava abertamente, a tentação de atravessar a rua a serpente oculta em seu próprio paraíso.  Sara as vezes se perguntava se Eva também sentou-se durante um longo tempo observando a maçã, antes de finalmente tomar coragem e provar o fruto proibido. Óbvio, depois disso tudo foi para o Inferno.

O pesar desceu como chumbo sobre seus ombros.

- Lembre-se do segundo Mandamento, Sara – ela sussurrou.

A serpente não levaria a melhor sobre essa Eva.

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