quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Onde o Vento faz a curva - Capítulo 02


A cinco ruas de onde Eva e a Maçã se vigiavam, Maria da Glória tentava chamar a atenção do namorado.
- Disse que é o casamento da minha prima. Você a conheceu anos atrás. Marina, lembra?
Pedro assentiu distraído enquanto corrigia algumas provas.
Maria da Glória apertou os lábios. Logo apertou as mãos para impedir-se de rasgar a pilha de avaliações que disputavam a atenção do namorado. Não faria muita diferença. Tudo disputava a atenção dele: a escola, a religião, o pai, os amigos.
- Ela nos convidou – insistiu – e a cidade não é longe daqui...
Ele soltou a caneta e ergueu para ela um olhar impaciente.
- Não temos tempo Mari. Estaremos ocupados com a escola, nossos compromissos. Não temos tempo pra isso. E meu pai precisa de mim para ajudar no culto.
Seu olhar desabou sobre ela criticamente.
- E nem sequer temos tempo de comprar uma roupa decente! E esquece de sua tia? Sabe que ela odeia ficar sozinha à noite.
À menção da tia, ela se encolheu.
Vê? – disse ele percebendo a reação dela e sorrindo triunfante – Não podemos ir.
Maria da Glória manteve seu rosto calmo e controlado, embora desejasse gritar mais que tudo. Gritar não resolveria nada e, assim como ele, estava em seu local de trabalho. Sentiu-se quase feliz quando a sineta tocou indicando o início da próxima aula.
Pedro lançou as provas na pasta com eficiência e levantou.
- Você não vem? – Perguntou, hesitante, quando ela não se moveu.
- Não tenho esse horário.
A incerteza brilhou no rosto dele.
- Olha, sei que está frustrada, mas assim é melhor. Sua prima não tem boa reputação. Francamente, não acho que deva se relacionar com ela...
Maria da Glória forçou um sorriso em seu rosto congelado.
- Está tudo bem. Vou ligar pra ela e dizer que não podemos ir. Te vejo mais tarde.
O alívio no rosto dele enquanto se afastava cortou em sua alma tão fundo que por um momento ela teve dificuldade de respirar.
Alcançou o celular e procurou o número de marina. Sua prima “sem reputação” era tão diferente dela quanto a água do vinho. Sexy, divertida, sem limites. E a pessoa mais feliz que conhecia. Lógico que sua tia a odiava.
Guardou o telefone sem discar. Iria a esse casamento de um jeito ou de outro.
Decisão tomada, pegou a bolsa e dirigiu-se a saída. A escola onde trabalhava ficava próxima ao centro comercial. Com sorte encontraria o vestido adequado em tempo recorde, e estaria em casa antes que sua tia voltasse do centro comunitário onde passava as tardes.
Ao passar por uma vitrine onde estava exposto um vestido escandalosamente decotado franziu os lábios em reprovação, mais por hábito que convicção. Certamente não encontraria ali um vestido adequado. Atravessou a rua até uma loja de estilo conservador, onde costumava comprar a maioria de suas roupas. A palavra costume passeou aborrecidamente por sua cabeça. Maria da Glória deu dois passos para trás e desceu a calçada antes de perceber que o fazia. Atravessou a rua como um autômato desviando distraída de uma bicicleta e um Fiat vermelho muito mal humorado que não se privou de gritar olha por onde anda, maluca! Ela suspirou e seguiu em frente. Estava segura que os carros não deveriam ser mal educados assim.
Olhou de novo o vestido indecente.
A porta ao lado da vitrine abriu e uma adolescente perguntou:
- Não gostaria de entrar, professora?
Reconheceu na adolescente uma de suas ex-alunas e um sentimento de mal estar se instalou pesadamente em seu estômago.
- Acho que aqui não tem nada do meu estilo – murmurou.
A adolescente a olhou de cima abaixo com um olhar que indagava que estilo? Então olhou de novo e dessa vez a vendedora assumiu, percebendo um claro potencial inexplorado. Abriu a porta amplamente e a puxou para dentro com um sorriso.
Uma profusão de cores e estampas a deixaram momentaneamente zonza. Onde estava com a cabeça para entrar ali? Seu guarda roupa era composto basicamente de chemisiers e tons escuros. Teve o instinto de correr para a porta, mas viu-se sobrecarregada com uma pilha de vestidos nas mais surpreendentes cores enquanto a garota – chamava-se Alexandra, lembrou confusamente – tagarelava com entusiasmo.
Lançou um olhar suspeito à pilha de vestidos e percebeu, surpresa, que embora as cores fossem exuberantes, a modelagem era conservadora. Sentiu-se aliviada ao ver que a menina não tentava mudar seu estilo – ou a ausência dele – e apenas empurrava numa mudança sutil.
Mais relaxada começou a circular pela loja e, por hábito, estendeu a mão para um vestido preto. O tecido escuro e suave escorreu em suas mãos revelando um decote profundo e reveladoras fendas laterais. Jesus! Aquilo era um vestido ou um maiô?
Devolveu depressa o vestido a arara e fez um gesto para deter Alexandra que continuava a empurrar-lhe roupas.
- É suficiente – devolveu alguns modelos que considerou berrantes demais e selecionou os tons mais pastéis. Estava a ponto de entrar no provador quando notou o tamanho.
- Esse modelo é 40, Alexandra. Visto 42.
A vendedora lhe deu um olhar crítico.
- Desculpe professora, mas sempre tive a impressão que a senhora usava um número maior que o seu.
Maria da Glória mexeu-se desconfortável.
- Não gosto de roupas apertadas – retrucou.
- Tenho certeza que nada ficará apertado – afirmou Alexandra e a empurrou com determinação ao provador.
A imagem que o espelho de corpo inteiro lhe devolveu de imediato não era atraente. O vestido azul escuro que usava era reto e grande demais pra ela, mas o tecido pesado ocultava com sucesso a forma de seu corpo e isso a fazia mais confortável. O cabelo era um marrom sem graça e estava maltratado porque o mantinha sempre preso, em parte pelo calor infernal da cidade e também porque se o deixasse solto se convertia numa selvagem massa ondulada. Nunca o cortara curto porque sua tia desaprovava veementemente “esses cortes modernos”.  Em outras palavras qualquer corte com balanço e sexy. Não que a fibra de seu cabelo ficaria bem num corte assim.
E por fim seu rosto, se não era feio, era muito comum. Olhos castanhos esverdeados, nariz um pouco proeminente e uma boca que...
Nesse ponto Maria da Glória deu as costas ao espelho com desgosto. Ela gostava da boca. Infelizmente Pedro não parecia sentir nenhum interesse por ela.
Estava experimentando o terceiro vestido, um modelo com decote fechado em tafetá com listras coloridas, quando um tumulto soou na parte posterior da loja. Maria da Glória puxou a cortina do vestiário a tempo de ver uma senhora saindo da loja com óbvia indignação.
Alexandra colocou as mãos na cintura e encarou a cliente responsável pelo transtorno com um olhar de censura.
- O quê? – indagou Ana Clara acariciando a barriga proeminente. – Eu só queria ajudar.
- Disse que ela nunca mais iria transar!
- Ela queria me convencer a ler aquilo. Casamento Blindado? – fez um gesto exasperado – Acredite em mim, aquela mulher nunca mais vai transar se confia naquele tipo de literatura. Se eu tivesse problemas no meu casamento estaria lendo o Kama Sutra.
Alexandra mordeu o lábio tentando conter o riso. Finalmente percebeu Maria da Glória no canto e permitiu que seu sorriso se libertasse com alívio.
- Aí está você. Vestiu muito bem - observou com certa surpresa. – Na verdade acho que você poderia usar o 38. Está um pouco folgado.
- Não! – a negação escapou em tom de pânico. – Na verdade não gostei dele. Muito exagerado...
- Está lindo – discordou Alexandra. – Te deixou...
- Iluminada – completou Ana Clara. – E ela tem razão. Acho que deveria experimentar um 38.
- Prefiro assim – ergueu o queixo teimosamente e voltou para o vestiário.
Deu um olhar crítico a visão refletida no espelho. Era verdade. Ela parecia iluminada... Quase bonita. Talvez devesse tentar o 38...
Meia hora depois, três novos vestidos e um par de sapatos bicolor que ela não sabia se teria coragem de usar, Maria da Glória saiu da loja com a sensação libertadora de que estava cometendo um grande erro e não ligava a mínima para isso.
Da porta da loja, Alexandra e Ana Clara a observaram se afastar com perplexidade.
- Não entendo – murmurou a vendedora. – Porque ela usa aquilo? Quer dizer... A mulher pode usar qualquer roupa que queira.
- Ouvi dizer que a tia dela é uma beata louca de pedra – Ana Clara comentou. - E ela não namora o filho do pastor? Talvez ele seja ciumento...
Alexandra franziu o cenho em desaprovação. Nunca se anularia assim por um homem.
- Cada louco com sua mania – sentenciou enquanto lançava à mulher grávida um olhar especulativo. – Assim... sobre o Kama Sutra... me emprestaria esse livro?
- Claro. Quando você fizer vinte e um.
Alexandra revirou os olhos.
- Por favor! Aposto que sou mais experiente que você.

- É possível, mas fingirei que não acredito – e voltou a entrar na loja exigindo que a vendedora lhe conseguisse algo que não parecesse “roupa de grávida”.

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