sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Folclore Africano



O GRIÔ

GRIÔ é uma palavra abrasileirada pelo ponto de cultura Grãos de Luz e Griô, de Lençóis, Bahia. Vem do francês griot, que traduz a palavra Dieli (Jéli ou Djeli) e significa o sangue que circula, na língua bamanan - habitante do antigo império Mali que hoje está dividido entre vários países do noroeste da África. Na tradição oral do noroeste da ÁFRICA, o griô é um(a) caminhante, cantador(a), poeta, contador(a) de histórias, genealogista, artista, comunicador(a) tradicional, mediador(a) político(a) da comunidade. Ele(a) é o sangue que circula os saberes e histórias, mitos, lutas e glórias de seu povo, dando vida à rede de transmissão oral de sua região e país.

NO BRASIL a palavra griô se refere a todo(a) cidadão(ã) que se reconheça e/ou seja reconhecido(a) pela sua própria comunidade como: um(a) mestre das artes, da cura e dos ofícios tradicionais, um(a) líder religioso(a) de tradição oral, um(a) brincante, um(a) cantador(a), tocador(a) de instrumentos tradicionais, contador(a) de histórias, um(a) poeta popular, que, através de uma pedagogia que valoriza o poder da palavra, da oralidade, da vivência e da corporeidade, se torna a biblioteca e a memória viva de seu povo. Em sua caminhada no mundo, ele(a) transmite saberes e fazeres de geração em geração, fortalecendo a ancestralidade e a identidade de sua família ancestral e comunidade. São exemplos das griôs e dos griôs no Brasil: congadeiro(a), jongueiro(a), folião(ã) dos reis, capoeira, parteira(o), zelador(a) de santo, erveira(o), caixeiro(a), carimbozeiro(a), reiseiro(a), tocador(a) de viola, sanfoneiro(a), rabequeiro(a), cirandeiro(a), maracatuzeiro(a), coquista, marujo, artista de circo, artista de rua, bonequeiro(a), mamulengueiro(a), catireiro(a), repentista, pajé, artesão(ã), e fazedores(as) de todas as demais expressões culturais populares que se desenvolveram e SE TRANSMITEM POR UMA TRADIÇÃO ORAL. 

O projeto Ação Griô Nacional é uma ação compartilhada no âmbito do Ministério da Cultura através da Secretaria de Cidadania Cultural, SCC-MinC e o Ponto de Cultura Grãos de Luz/Lençois-BA, e visa a preservação das tradições orais das comunidades e a valorização dos Griôs, Mestres e Aprendizes enquanto patrimônio cultural Brasileiro.



Por meio de editais públicos a Ação Griô apoia projetos pedagógicos que contemplem as práticas da oralidade, dos saberes e dos fazeres dos Mestres e Griôs nas  parcerias dos Pontos de Cultura com escolas,  universidade e entidades do terceiro setor.

Atualmente a Ação contempla 650 bolsistas entre Griôs, Mestres e Griôs Aprendizes das tradições orais de diversos grupos culturais, indígenas, quilombolas, povos de terreiro, mestres e outros.

A LENDA DO TAMBOR AFRICANO – GUINÉ BISSAU

Corre entre os Bijagós da Guiné Bissau, que os macaquinhos de nariz branco tiveram a ideia de viajar até à Lua e trazê-la para a Terra.
Assim, numa bela manhã, depois de buscarem um caminho por onde subir aos céus, o mais pequenino dos macacos teve a ideia de subirem uns nos outros para alcançarem a lua. 
 
A fila foi crescendo e se erguendo pelo céu até que o pequeno macaquinho acabou por tocar na Lua. 
 
Mas antes que ele pudesse puxá-la para a Terra, a coluna se desmoronou. Todos caíram e somente o macaquinho ficou agarrado à Lua. Ao se dar conta do ocorrido, a Lua o segurou pela mão, olhou-o com espanto e achando a cena engraçada, deu-lhe de presente um tamborzinho.
Não tendo meios de voltar à Terra, o macaquinho aprendeu a tocar o instrumento. Mas com o passar dos anos, a saudade aumentava e a falta de sua gente o fazia sonhar com as palmeiras, mangueiras, acácias, coqueiros e bananeiras que haviam ficado para trás. 
 
Então, foi pedir à Lua que o deixasse voltar!

Intrigada, a lua lhe perguntou:
“Porque você quer voltar? Não estas feliz aqui? Não gostas de seu presente?”
E com lágrimas nos olhos, o macaquinho explicou-lhe o que lhe fazia falta. Mais uma vez, com pena do macaquinho, a Lua amarrou o tambor ao macaquinho e disse:
"Macaquinho de nariz branco, vou-te fazer descer, mas ouve bem o que te digo!
Não toques o tamborzinho antes de chegares lá baixo. E quando puseres os pés na Terra, tocarás então com força para eu ouvir e cortar a corda.
E assim ficarás livre."
O Macaquinho, feliz da vida, prometeu a Lua que só tocaria o tambor ao chegar na Terra e foi descendo sentado no tambor. Mas a meio da viagem, não resistiu! Bem de leve, de modo que a Lua não pudesse ouvir, pôs-se a tocar o tambor.
O vento que fazia a corda estremecer, levou o som para Lua que ao ouvir o som, pensou:  “O Macaquinho chegou à Terra”. E logo cortou a corda... 

Neste momento, o macaquinho foi atirado ao chão, caindo desamparado em sua ilha natal. Ao ver o macaquinho estendido no chão, uma menina que cantava e dançava ao ritmo de uma canção, correu a ajudá-lo. Mas a queda tinha sido de muito alto e o macaquinho não resistiu. Porém, antes de morrer, conseguiu dizer à menina que aquele instrumento era um tambor e que ela deveria entregá-lo aos homens do seu país... 

Recuperada da surpresa, a menina, correu o mais rápido possivel para contar aos homens da sua terra o que acontecera. Aos poucos, foram chegando  gente e mais gente e foi então, que naquele recanto da terra africana se fez o primeiro batuque ao som do primeiro tambo. A partir de então, os homens construíram muitos tambores e, desde então não há terra africana sem este instrumento.

O tambor ficou tão querido entre o povo africano, que em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza da sua alma.


MITO DAS DUAS LUMINÁRIAS

Entre as numerosas lendas do continente africano sobressai a dos negros de Senegal, dado que talvez sejam os únicos que têm uma cosmologia digna de tal nome. As suas fábulas mostram que as duas luminárias, isto é, tanto o Sol como a Lua, estavam já consideradas como superiores aos outros astros. O mito cosmogônico pretende estabelecer as diferenças de ambos os corpos astrais e se propõe explicar -de uma maneira muito simples, embora carregada de conotações míticas e emblemáticas- as grandes diferenças entre a Lua e o Sol. O brilho, o calor e a luz que se desprendem do astro-rei impedem que sejamos capazes do olhar fixamente. Em compensação, podemos contemplar a Lua com insistência sem que os nossos olhos sofram mal algum. Isso é assim porque, em certa ocasião, estavam banhando-se nuas as mães de ambas as luminárias. Enquanto o Sol manteve uma atitude carregada de pudor, e não dirigiu o seu olhar nem um instante para a nudez da sua progenitora, a Lua, em compensação, não teve reparos em observar a nudez da sua antecessora. Depois de sair do banho, foi dito ao Sol: "Meu filho, sempre me respeitaste e desejo que a única, e poderosa deidade, te bendiga por isso. Os teus olhos se afastaram de mim enquanto me banhava nua e, por isso, quero que, desde agora, nenhum ser vivo possa olhar para ti sem que a sua vista fique danificada".

E à Lua foi dito: "Minha filha, tu não me respeitaste enquanto me banhava. Olhaste para mim fixamente, como se fosse um objeto brilhante e, por isso, eu quero que, a partir de agora, todos os seres vivos possam olhar para ti sem que a sua vista fique danificada nem se cansem os seus olhos".

CIDADES DEBAIXO DE ÁGUA

Havia uma bela mulher que aparecia plena de juventude e vitalidade. Chamava-se Haraké e o seu poder de atração era tal que não se sabia se era deusa ou se pertencia à espécie dos humanos mortais. A lenda mais estendida afirmava que Haraké tinha os cabelos tão transparentes como as próprias águas que lhe serviam de morada. Ao entardecer, a bela jovem tinha por costume descansar à beira do Níger, e esperar até que chegasse o seu amante. Assim que este se reunia com ela, ambos entravam nas profundidades 

daquelas águas encantadas e profundas; a jovem levava o escolhido no seu coração através de maravilhosos caminhos que conduziam a faustosas e desconhecidas cidades. Nos seus esplêndidos recintos, e entre o som do tam-tam e dos tambores, teria lugar a ostentosa cerimônia que uniria o feliz casal para toda a vida.

CABO VERDE
O Mistério dos Sete Sapatos


Um rei tinha uma filha que toda noite gastava sete pares de sapatos. Assim, anunciou que daria a mão da princesa e metade do seu reino a quem desvendasse tal mistério, porém mandaria matar quem falhasse. Muitos homens se aventuraram, e todos morreram.

Um jovem pobre da cidade resolveu tentar a sorte e pediu à mãe que lhe preparasse três pães para viagem. A mãe assim fez, mas colocou veneno nos pães pensando:''Prefiro que ele morra no caminho a que seja executado pelo rei”.

Logo adiante um moço lhe parou e pediu um pão; Em troca lhe abençoou. Era santo Antonio. Pouco depois uma mulher lhe  pediu um  pão e em troca deu uma capa que lhe tornava invisível. Era Nossa Senhora. Mais adiante um senhor lhe pediu um pão e em troca lhe deu um Chicote. Era Deus.

Por fim o rapaz chegou ate o palácio.

O rei falou que ele ia dormir no quarto vizinho  ao de sua filha. O moço se recolheu ao aposento designado, mas, em vez de se deitar, cobriu-se com a capa da invisibilidade e pé ante pé entrou no quarto da princesa. Viu-a então tirar do armário seis pares de sapatos e sair. Seguiu-a escada abaixo, jardim a fora e mata adentro até um arbusto de ouro. Ali ela parou e cumprimentou a planta: “Boa noite!”. O arbusto respondeu: “Boa noite para você e seu amigo”. A princesa franziu a testa, espantada: “Que amigo? Estou sozinha!”. Depois de olhar em torno para se certificar do quer dissera, colheu uma flor e a prendeu na capa, sendo imitada pelo moço invisível. Logo depois repetiu a cena duas vezes, junto a um arbusto prata e um de cobre, e outras quatro flores foram colhidas.

Por fim a princesa montou um cavalo branco, atravessou um rio e foi ter um palácio cheio de demônios. O rapaz estalou seu chicote e chegou antes dela. Misturando-se aos diabos, a princesa dançou valsa ate gastar os sapatos que tinha nos pés. Depois dançou quadrilha, mazurca, sarabanda, polca, tango e samba, acabando com seus seis sapatos. Então montou o cavalo branco e voltou para o palácio. O moço invisível estalou seu chicote e chegando antes dela, foi direto para cama. Na manha seguinte o rei o chamou para saber se conseguira desvendar o mistério. O rapaz contou tudo o que tinha visto e, para comprovar o que dizia, mostrou-lhe as flores colhidas nos arbustos de ouro, prata e cobre.

“Pois agora pode se casar com a minha filha e ficar com metade do meu reino”, declarou o rei, satisfeito.
“Sua filha não quero, Majestade, pois moça que dança com os demônios não pode ser minha esposa”, o jovem respondeu. “Mas quero metade do seu reino, conforme o senhor prometeu. Assim minha mãe e eu poderemos viver tranquilos até o fim de nossos dias!”.

CONGO/ ZAIRE

OS Gêmeos


Uma mulher deu a Luz dois gêmeos e os chamou de Mavungu e Luemba. Eles já nasceram adultos, cada qual com seu talismã. Por essa época a filha do chefe Nzambi atingiu a idade de se casar. Muitos pretendentes se apresentaram, porém ela recusou a todos.

Ao saber desses acontecimentos, Mavungu decidiu tentar a sorte. Rogou a seu talismã que o ajudasse e partiu, chegando a aldeia do grande chefe após uma caminhada de muitos dias. Assim que o viu, a filha de Nzambi correu para a mãe e declarou: “O homem que eu amo está aqui, e morrerei se não me casar com ele”.

O casamento foi celebrado sem demora, e ao fim da cerimônia os jovens foram conduzidos à linda cabana nupcial, enquanto a aldeia inteira comemorava sua união com danças e cantorias. Na manhã seguinte Mavungu notou que uma série de espelhos revestiam as paredes da cabana, todos cobertos com um pano. Pediu à esposa que os descobrisse e neles viu as imagens de sua aldeia e daquelas pelas quais passara em sua viagem. Apenas um espelho a filha de Nzambi não descobriu. “Ele mostra a aldeia da qual nenhum viajante retorna”, explicou. Contudo Mavungu insistiu tanto que a moça acabou fazendo sua vontade. 

“Preciso ir até lá ...”, disse o rapaz ao se deparar com a imagem fatídica, e de nada adiantou sua esposa lhe implorar que não fosse.

Chegando a seu destino, Mavungu encontrou uma bruxa. Pediu-lhe fogo para acender o cachimbo, e ela o matou. Preocupado com o irmão, Luemba decidiu procurá-lo. Ao vê-lo, o chefe Nzambi exclamou, feliz: “Meu genro, você voltou!”.

Luemba explicou que não era Mavungu, e sim seu irmão gêmeo, porém, como de nada adiantou, deixou-se conduzir à cabana nupcial. Naquela noite rezou com fervor, suplicando a seu talismã que o ajudasse, pois pressentia que tinha uma difícil missão a cumprir.

Ao despertar na manhã seguinte, viu os espelhos cobertos, pediu a esposa de seu irmão que os descerrasse e tomou conhecimento da sinistra aldeia da qual nenhum viajante regressava. “Preciso ir lá”, declarou. 

“De novo?”, a filha do chefe perguntou, pois, como seu pai, acreditava que ele era seu marido. 

Luemba partiu e encontrou a bruxa. Pediu-lhe fogo e, antes que ela pudesse fazer um gesto, matou-a com um só golpe. Então pegou os ossos do irmão, tocou-os com seu talismã e os trouxe de volta à vida. Juntos os dois reuniram todos os ossos espalhados naquele verdadeiro cemitério a céu aberto e com seus talismãs ressuscitaram as vitimas da bruxa. 

Assim, conquistaram centenas de seguidores fiéis e voltaram, vitoriosos, para a aldeia de Nzambi, onde demonstraram a todos que eram irmãos.

QUÊNIA

O Homem de Muitas Formas


Nos confins do Quênia viviam um homem chamado Mbokothe e seu irmão. Seus pais tinham morrido, deixando-lhes apenas duas vacas. “Se eu as der para o feiticeiro, ele vai me conferir poderes mágicos”, Mbokothe falou. 

Tratou então de levá-las para um famoso feiticeiro do pais, que lhe conferiu o poder de se transformar em qualquer animal que desejasse. Feliz da vida, voltou para casa e contou tudo ao irmão, mas lhe recomendou que guardasse segredo.

Um dia ele se transformou num belo touro e disse ao irmão para ir vendê-lo no Mercado. Um homem o comprou por duas vacas e cinco cabras. No caminho Mbokothe escapou e, usando seu poder mágico, transformou suas patas traseiras em patas de leão. Quando o homem viu as pegadas na terra, concluiu, com tristeza que um leão tinha devorado o touro e foi embora. Mbokothe esperou um pouco, retomou sua forma humana e rumou para casa. 

Na semana seguinte novamente virou touro, e seu irmão o vendeu no Mercado por dez cabras. O que ele não sabia era que o atual comprador também recebera poderes mágicos do mesmo feiticeiro famoso. Assim, quando o touro lhe escapou, o homem se transformou em leão e correu atrás dele. Prestes a ser capturado, Mbokothe virou pássaro e voou. Então seu comprador se transformou num imenso papagaio e o perseguiu. Mbokothe desceu para o chão e virou antílope. Mais que depressa seu perseguidor assumiu a forma de um lobo. 

As transformações foram se sucedendo até que Mbokothe, exausto, desistiu de fugir. “Você venceu”, disse, reconhecendo que mesmo um homem com poderes mágicos um dia encontra alguém capaz de derrotá-lo. “Venha comigo até minha casa, que vou lhe devolver suas cabras”, acrescentou.


Fontes:


6 comentários:

  1. Olá!
    Postagem interessante, nunca tinha lido nada sobre. Gostei :D

    Beijos, Kamila
    www.vicio-de-leitura.com

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  2. Mely,

    gostei do termo "um brincante". Acho que as vezes sou um brincante...

    Sempre bacana seus posts.

    Ótimo final de semana para você!

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  3. Obrigada. O folclore africanoé realmente interessante.

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