quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Volta Ao Lar




A Volta Ao Lar

Alvas gaivotas rondavam as rochas,
Densas escumas açoitavam o ar.
As ondas se erguiam qual chama de tochas
Quando Salomão Kane retornou ao lar.

Recluso em silêncio hirto seu passo,
Sondado sondava Devon sua cidade.
Imerso em memórias de um
Tempo já escasso, ardia em
Seu peito sufocante saudade.

A taverna abrigou-o em verdade descrente:
“Seria mesmo Kane, o guerreiro no Senhor,
O bravo ser altivo, de bravura evidente,
Que honrava aquele teto com seu grande valor?”

Erguendo sua caneca em brinde a Deus,
Saudou Salomão a todos os seus,
E quebrando o silêncio que até agora fizera,
Narrou de imediato o que de fato ocorrera:

“Jamais esquecerei o dia terrível…
Liderando sua nau, esquecendo o perigo,
Sir Richard Grenville empreendeu o impossível
No intento absurdo de enfrentar o inimigo!”

“A cada aurora rubra que os dias traziam,
Nossa luta renhida jamais recuava!
Corpos mutilados o convés recobriam
Banhados pelo sangue que a morte espalhava!”

Inevitável, então, a tragédia consumada
Ornou de destroços a maré agitada.
E mostrando a todos que por fim triunfou
A morte implacável Sir Grenville arrebatou!”

“Partidas as nossas atenuadas espadas,
Sem líder a brava e fiel tripulação…
Extinguiu-se aos poucos a empresa malfadada,
E viu seu fim a portentosa embarcação!”

“Onde estará Bess?” indagou kane.
“Como dela lágrimas pude eu arrancar?”
“Pertence ela agora ao frio
Cemitério que, qual eremitério,
A irá sempre abrigar!”

O vento lá fora uivava quando então,
numa pausa, baixou seu olhar o triste puritano…

“A morte não vê homem, mulher ou causa…
esse é o terrível fado humano!”

Como dois poços místicos sempre a brilhar,
Seus olhos revelavam imagens distantes,
Então pôs-se Kane aos presentes contar
Aquilo de que falam somente os errantes.

“eu vi a magia negra em desnudas paragens…
Vi bruxos evocarem pavorosas imagens!”

“Conheci também, um dia A imortal soberana
de uma cidade antiga, tão antiga como a morte!
Reinando solitária, com o demônios, seu consorte
Ocupava ela o altar de divindade profana!”

“Seu beijo expelia um negro veneno,
Ainda que ao paladar lembrasse néctar puro,
E cada vil vassalo do macabro reino escuro,
Vivia qual zumbi a adorar o deus obsceno!”

“Combati formas vampiras que de todos a vida sugavam,
E atravessei colinas vazias onde, á noite, só os mortos vagam!”

“Contemplei um sem-número de crânios cortados,
Espalhados pela terra tão árida e nua,
E o voo devasso de demônios alados
De encontro ao clarão da pálida lua!”

“Tenho os pés cansados de vagar.
E o tempo passa, eu bem sei!
Eu poderiam em Devon me fixar
E cultivar as raízes que deixei…”

Nisso o oceano rugiu num rompante,
Pôs fim ao devaneio de Salomão kane
E indicou-lhe o destino que esperava adiante.

Sem titubear, sem dizer mais nada;
Erguendo-se Kane cingiu sua espada
Olhando então a noite com austero semblante,
Abriu o puritano caminho entre a gente
Que só o viu caminhar para o negro horizonte.

Houve mesmo aqueles que seu vulto esguio
Viram caminhando contra a lua incolor.
 Mas, com que destino, por que trilhas seguiu,
Homem algum foi capaz de supor…

…embora murmurasse a brisa agitada:
“sua vida será sempre uma sem-fim caminhada!”

            - Robert E. Howard -

Nenhum comentário:

Postar um comentário