sexta-feira, 20 de julho de 2012

FOLCLORE DAS AMÉRICAS - AMÉRICA DO SUL



É o segundo maior continente do mundo, banhado a leste pelo Oceano Atlântico e a oeste pelo Oceano Pacífico. Formado por duas grandes massas de terra, unidas por uma faixa estreita, divide-se em três partes: do Norte, Central (englobando as nações do mar do Caribe) e do Sul. 

ALGUMAS LENDAS E MITOS BEM CONHECIDOS NO BRASIL



Uma lenda indígena que descreve uma cobra de fogo de olhos enormes ou flamejantes. Para os índios ele é "Mbaê-Tata", ou Coisa de Fogo, e mora no fundo dos rios. A narrativa varia muito de região para região. Único sobrevivente de um grande dilúvio que cobriu a terra, o Boitatá escapou entrando num buraco e lá ficando, no escuro, motivo pelo qual seus olhos cresceram. Outros dizem que é a alma de um malvado, que vai incendiando o mato à medida que passa. Por outro lado, em certos locais ele protege a floresta dos incêndios. Algumas vezes persegue os viajantes noturnos, ou é visto como um facho cintilante de fogo correndo de um lado para outro da mata.


 
É um monstro com corpo de homem, focinho de anta ou de tamanduá e pés de girafa, que perambula durante as noites, em busca de algum alimento, lá pelas bandas do rio Xingu. Adora comer as cabeças de cães e gatos recém-nascidos. Também adora beber o sangue de gente e de outros animais, rasgando-lhes a carótida. Só pode ser morto com um tiro na região do umbigo. É uma espécie de lobisomem indígena. 

Cobra-Grande



Serpente lendária da Região Norte, que mora entre as rochas dos rios e lagoas, de onde sai para afundar barcos. Quando ela sai das rochas, troveja, lança raios e faz chover. Se a chuva é muito forte e ameaçadora de novo dilúvio, toma a forma de arco-íris e serena as águas. 


Um homem muito cruel, que surrava a própria mãe. Ao morrer, foi rejeitado por Deus e o Diabo. Não foi enterrado, porque a própria terra, enojada, vomitou seu corpo. Assim, perambula por aí, com o corpo todo podre, ainda cheio de ódio no coração, fazendo mal a todos os que cruzam o seu caminho. Há relatos desta lenda nos estados de São Paulo, Paraná, Amazonas, Minas Gerais e na região Centro-Oeste. 


Acredita-se que a lenda do boto tenha surgido na região amazônica. Ele é representado por um homem jovem, bonito e charmoso que encanta mulheres em bailes e festas. Após a conquista, leva as jovens para a beira de um rio e as engravida. Antes de a madrugada chegar, ele mergulha nas águas do rio para transformar-se em um boto.



Relatada no Brasil desde o século XVI, a lenda da Iara é parte da mitologia universal, sendo uma variante da figura da sereia. No princípio, a Iara se chamava Ipupiara, um homem-peixe que levava pescadores para o fundo do rio, onde os devorava. No século XVIII ocorreu a mudança, e o Ipupiara se tornou a sedutora sereia Uiara ou Iara, que enfeitiça os pescadores com sua beleza e canto e os leva para o fundo das águas. Por vezes ela assume a forma humana completa e sai em busca de suas vítimas.


Diz a lenda que era uma velha feia com forma de jacaré, que rouba as crianças desobedientes. A figura da Cuca tem afinidades funcionais com a do Bicho-papão e do Velho-do-saco, seres medonhos a quem alguns pais ameaçam entregar as crianças rebeldes.


Também conhecido como Caipora, Caiçara, Caapora, Anhanga ou Pai-do-mato, todos esses nomes identificam uma entidade da mitologia tupi-guarani, um protetor das matas e dos animais silvestres. Representado por um anão de cabelos vermelhos e compridos, e com os pés virados para trás, que fazem se perder aqueles que o perseguem pelos rastros. Monta um porco do mato e castiga todos que desrespeitam a natureza. Quando alguém desaparece nas matas, muitos habitantes do interior acreditam que é obra do curupira. Os índios, para agradá-lo, deixavam oferendas nas clareiras, como penas, esteiras e cobertores. Também se dizia que uma pessoa deveria levar um rolo de fumo se fosse entrar na mata, para lhe oferecer caso o encontrasse. Sua presença é relatada desde os primeiros tempos da colonização.

Lobisomem

Lenda que aparece em várias regiões do mundo, falando da desgraça de um homem que tem sua natureza humana fundida com a de um lobo periodicamente, sob influência da Lua cheia. Nesta condição ele é uma criatura feroz que ataca pessoas. Ele pode ser o resultado de um pacto de alguém com as forças do mal, ou nasceu na condição de sétimo filho homem de seus pais.


Um mito indígena que tem seu princípio na menina Mara, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz. Certa noite, adormeceu e sonhou com um jovem loiro e belo que descia da Lua e dizia que a amava. Mara apaixonou-se, mas logo o jovem desapareceu de seus sonhos, e embora virgem, percebeu que esperava um filho. Deu à luz uma graciosa menina, de pele branca e cabelos loiros, a quem chamou Mandi. Em sua tribo foi adorada como uma divindade, mas adoeceu e acabou falecendo. Mara sepultou a filha em sua oca e, inconsolável, de joelhos, chorava todos os dias sobre a sepultura, deixando cair leite de seus seios, para que a filha revivesse. Um dia brotou ali um arbusto. Cavando a terra, Mara encontrou raízes muito brancas, brancas como Mandi, que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável. Todos entenderam que criança viera à Terra para alimentar seu povo. O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi fora sepultada na oca.

Mapinguari


Monstro que ainda hoje atemoriza os moradores da floresta na região amazônica. Segundo as descrições o Mapinguari é uma criatura parecida com um macaco, mais alto que um homem, de pelo escuro, com grande focinho que lembra o de um cachorro, garras pontiagudas, uma pele de jacaré, um ou dois olhos e que exala um forte mau cheiro. Segundo o índio Domingos Parintintin, líder de uma tribo, ele só pode ser morto com uma pancada na cabeça. Mas há grande risco, pois a criatura tem o poder de fazer a vítima ficar tonta e "ver o dia virar noite"

Mula sem cabeça



Lenda hispânico-portuguesa, cuja versão mais corrente é a de uma mulher, virgem ou não, que dormiu com um padre, pelo que sofre a maldição de se transformar nesse monstro em cada passagem de quinta para sexta-feira, numa encruzilhada. Outra versão fala que se nascesse uma criança desse amor proibido, e fosse menina, viraria uma mula sem cabeça; se menino, seria um lobisomem. A Mula percorre sete povoados naquela noite de transformação, e se encontrar alguém chupa seus olhos, unhas e dedos. Apesar do nome, a Mula sem cabeça, acordo com quem já a "viu", aparece como um animal completo, que lança fogo pelas narinas e boca, onde tem freios de ferro. Às vezes, vista de longe, parece chorar um choro humano e pungente. Se alguém lhe tirar os freios o encanto se quebra; também basta que se lhe inflija qualquer ferimento, desde que verta pelo menos uma gota sangue.

Negrinho do Pastoreio



Lenda afro-cristã de um menino escravo que é espancado pelo dono e largado nu, sangrando, em um formigueiro, por ter perdido um cavalo baio. No dia seguinte, quando foi ver o estado de sua vítima, o estancieiro tomou um susto. O menino estava lá, mas de pé, com a pele lisa, sem nenhuma marca das chicotadas, nem fora comido pelas formigas. Ao lado dele, Nossa Senhora, e mais adiante o baio e os outros cavalos. O estancieiro se jogou no chão pedindo perdão, mas o negrinho nada respondeu. Apenas beijou a mão da Santa, montou no baio e partiu com a tropilha. Depois disso, tropeiros, mascates e carreteiros da região, todos davam notícia de ter visto passar uma tropilha de tordilhos, tocada por um negrinho montado em um cavalo baio. Então, muitos passaram a acender velas e rezar um Pai Nosso pela alma do supliciado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma coisa, o que fosse, pedia-la ao Negrinho, que a campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, que ele levava para o altar de sua madrinha, a Virgem que o livrara do cativeiro.

Saci Pererê


Provável importação portuguesa, relatado primeiramente na Região Sudeste, no século XIX. O Saci Pererê é um menino negro de uma perna só, e, conforme a região, é um ser maligno, benfazejo ou simplesmente brincalhão. Está sempre com seu cachimbo, e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso. Adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas. A lenda também diz que o Saci se manifesta como um redemoinho de vento e folhas secas, e pode ser capturado se lançarmos uma peneira ou um rosário sobre o redemoinho. Se alguém tomar-lhe a carapuça, tem um desejo atendido. Se alguém for perseguido por ele, deve jogar cordões enozados em seu caminho, pois ele vai parar para desatar os nós, permitindo que a pessoa fuja. Às vezes se diz que ele tem as mãos furadas na palma, e que sua maior diversão é jogar uma brasa para o alto para que esta atravesse os furos. Há uma versão que diz que o Caipora é seu pai. Os tupinambás tinham uma história afim, uma ave chamada Matita-perera, que com o tempo, passou a se chamar Saci-pererê, deixando de ser ave para se tornar um caboclinho preto e perneta, que aparecia aos viajantes perdidos nas matas.

Vitória Régia


Lenda de origem tupi-guarani, contando que, no começo do mundo, toda vez que a Lua se escondia no horizonte ia folgar com suas virgens prediletas. Se a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela. Naiá, filha de um chefe e princesa da tribo, ficou impressionada com a história. Quando todos dormiam e a Lua andava pelo céu, Naiá subia as colinas e perseguia a Lua na esperança que esta a visse e a transformasse em estrela. Fez isso por longo tempo, e chorava porque a Lua não a notava. Certa noite, em prantos à beira de um lago, Naiá viu refletida nas águas a imagem da Lua. Pensado que ela enfim viera buscá-la, Naiá atirou-se nas águas, e nunca mais foi vista. Compadecida, a Lua resolveu transformá-la em uma estrela diferente, a "Estrela das Águas", a planta vitória régia, cujas flores brancas e perfumadas só abrem à noite, e ao nascer do sol ficam rosadas.

UMA LENDA DO PERU

Khuno, o deus das tempestades, destruiu uma aldeia com chuva torrencial e granizo porque ele estava bravo com seus habitantes devido ao fato deles atearem fogo na floresta, após derrubarem as árvores, para clarear a terra e cultivar alimentos. Quando cessou a tempestade, os sobreviventes encontraram uma árvore de cacau. Este fato teria marcado o começo do cultivo do cacau na região. O cacau mostrou, então para estas pessoas como se alimentar e viver em harmonia com as árvores e a natureza.

UMA LENDA DA CORDILHEIRA DOS ANDES

Um mito, originário do norte da cordilheira dos Andes, fala do papel crucial do cacau para o restabelecimento do equilíbrio da natureza, após um deus ganancioso ter arrebatado para si todas as suas propriedades. A história começa com um deus onipotente chamado Sibu que tinha poderes para criar homens e animais a partir de sementes. Sibu transferiu seus poderes para outro deus, Sura, lhe entregando suas preciosas sementes. Sura enterrou as sementes e deixou o local por um breve período. Infelizmente, enquanto ele estava fora, uma terceira divindade, um anjo mal chamado Jabaru, desenterrou as sementes e as comeu, não deixando nada para o trabalho de criação de Sibu e Sura. Quando o pobre Sura retornou, foi morto por Jabaru, que lhe cortou a garganta e enterrou o corpo no local onde anteriormente estavam as sementes. Satisfeito com o que havia realizado, Jabaru deixou o local e retornou para casa, para junto das suas esposas. Passado algum tempo, o malvado Jabaru retornou ao local, tendo então constatado que, sobre a sepultura de Sura, haviam crescido duas árvores estranhas: um cacaueiro e um pé de cabaça. Ao lado das árvores, quieto, estava o deus onipotente Sibu, o qual, quando viu a entidade do mal se aproximando, ordenou que lhe preparasse um copo de bebida a partir das sementes do cacaueiro. Jabaru apanhou um fruto de cacau repleto de amêndoas e uma cabaça e os levou às suas esposas, que prepararam a bebida e retiraram o miolo da cabaça, enchendo-a em seguida com a rica bebida. O perverso Jabaru levou o recipiente cheio de volta para Sibu, o qual, educadamente, falou: "Não, você bebe primeiro". 

Jabaru concordou de pronto, e bebeu avidamente a bebida deliciosa, tão rápido quanto pôde. Mas o prazer da bebida se transformou em agonia, uma vez que o cacau nascido do corpo do bom Sura fez a barriga de Jabaru inchar e inchar, até estourar como uma bolha, deixando cair no chão todas as sementes que havia roubado. Sibu restabeleceu então a vida do seu amigo Sura, lhe devolvendo as sementes, e assegurando deste modo que todos os humanos e animais possam nascer e crescer, para desfrutar toda a generosidade da Terra, tudo a partir dessas preciosas sementes.

ASSOMBRAÇÕES FAMOSAS NA ARGENTINA, COSTA RICA, CHILE E COLÔMBIA

A luz do mal 

Esta luz seria usada para procurar por tesouro: se fosse uma luz branca, seria um sinal de um tesouro de ouro e prata, mas se fosse vermelha, tinha-se então que sair correndo, pois estava alí o trabalho do diabo. Este mito não é, de forma alguma, exclusivamente argentino: em todo o mundo as pessoas tentaram explicar o sentido destas luzes misteriosas que aparecem no crepúsculo, como na Espanha e no Chile.
A viúva
A Viúva era uma mulher enganada no amor, que morreu ao descobrir que seu marido era infiel. Ela teria então assinado um pacto com o diabo para permanecer eternamente neste mundo e obter sua vingança. Ela costumaria pular nos cavalos de homens solteiros e cavalgar abraçada a eles, e se eles se assustassem, ela os mataria. A única forma de se manter ileso seria carregar um rosário ou um crucifixo, e não ficando assustado. Este mito é tão arraigado na Argentina que a expressão “ser visitado pela Viúva” é um sinônimo para um evento inesperado e desagradável.
A Costa Rica tem um mito similar, conhecido como La Cegua. La Cegua pede carona a homens solitários e infiéis, atraindo-os com sua grande beleza. Mas uma vez que ela esteja sobre o cavalo, quando o homem olhar para trás verá que seu rosto é um crânio de cavalo coberto por carne podre, e ela irá morder suas bochechas para marcá-los como infiéis. 

A La Llorona -  É “a chorona”, e esta é uma assombração multinacional. Do México até o Chile, a Llorona fica perto de corpos de água (que podem ir de rios ao tanque em seu quintal) e geme por suas crianças perdidas. Ela pode estar lá só para assustar você, ou se você estiver na Colômbia, ela pode querer que você segure seu bebê por apenas um segundo, já que ela está muito cansada, e então você estará condenada a ser La Llorona até que alguém tome o peso de seus braços. As histórias por trás do desaparecimento de seus filhos variam de um país para o outro, mas a maioria delas tem alguns elementos em comum. Mulheres que se casaram com homens bem mais ricos do que elas eram, foram enganadas ou abandonadas, e decidiram descontar sua fúria em suas crianças, afogando-as, para depois arrepender-se de seu ato. 


 
LENDA DO MUNDO ANDINO

A lenda que segue fala de um dos mais populares e aterradores personagens do Mundo Andino. Suas várias versões foram recolhidas junto aos camponeses aymaras próximo ao lago Titicaca.

Nakaq, Nakajj, Nakkaq, Nacaj, entre outras variantes, vem de Nakay ou Nak'ay, que significa "degolador", "aquele que degola". São conhecidos também como Kjarisiri, Llik'ichiri ou simplesmente, "Chupa Sebo". A variedade com que descrevem este lendário personagem em várias áreas do Peru e Bolívia é impressionante. Mesmo apresentando variantes e peculiaridades conforme a região, podemos distinguir certas características em comum. No antigo Peru pré-colombiano, Nacac significava "carniceiro". Não no sentido de açougueiro, mas sim na função em que uma pessoa descarnava e esfolava animais para um sacrifício religioso.


Na margem noroeste do lago Titicaca, é muito difundida a versão do "Chupa Sebo", homem comum que vaga solitariamente pelas montanhas e estradas em busca de viajantes desavisados. Muitos habitantes - camponeses de origem aymara - acreditam nele e nas maldades que é capaz de realizar. Segundo os aymaras, o Kjarisiri costuma atuar da seguinte forma: Escolhida a vítima, aproxima-se simpático e sorridente, ganhando sua confiança. Depois, oferece uma bebida que a deixa desacordada. Alguns dizem que faz isso através de um pó mágico. Em seguida, opera a vítima com o auxílio de um aparelho médico, recolhendo em uma vasilha a gordura desejada. Na "operação", não fica nenhuma espécie de cicatriz. Na manhã seguinte, o viajante acorda e segue seu caminho sem se recordar do ocorrido. Logo adoece e morre, depois de um ou dois dias. Segundo uma das versões, a gordura recolhida seria vendida pelo Kjarisiri aos hospitais, para ser utilizada em operações! 

Em outras regiões, esse personagem assume o papel de pai de família. Trabalharia desta forma - assassinando viajantes - por questões meramente econômicas. Não teria uma vestimenta que o identificasse, confundindo-se com qualquer morador local. Contudo, carregariam sempre uma arma, geralmente uma faca afiada ou um revólver com o qual obrigariam a vítima a render-se. Gosta de agir à noite, em encruzilhadas, pontes e estradas desertas. A gordura recolhida, além de ser vendida, poderia ser utilizada na fabricação de peças de cobre, ou mesmo para lubrificar imagens religiosas.

A versão mais interessante, contudo, é a que fala do Kjarisiri como um padre franciscano! Nessa variante, ele seria capaz de realizar certas magias com suas vítimas, provocando o sono nos viajantes através de um pó mágico, que é soprado no rosto. De uma caixinha que carrega sempre consigo, tira uma faca afiada, com a qual extrai a gordura do corpo humano. A ferida então seria tampada de forma tão perfeita, que ao acordar, a vítima não se lembraria e não sentiria nada. Em seguida o infeliz viajante é tomado por uma profunda anemia, da qual geralmente não tem salvação. Muitas vezes, o lendário ser pode vir tocando um sinete, montado em uma mula. Alguns aymaras o descrevem como uma pessoa baixa, troncuda, com barba e cabelos compridos e cheios. Possui uma expressão aterradora. Para muitos, é sinônimo de morte garantida. Carregaria sempre - além da faca - uma corda pendurada no corpo. Contudo, ele pode ser evitado através do alho, a exemplo das superstições européias sobre vampiros. Os lugares montanhosos e desertos seriam os preferidos do Nakaq (ou Kjarisiri), mas também seriam encontrados em cemitérios onde passavam a noite, ocultos pela escuridão, a extrair a gordura dos mortos.

Para a etnia dos Kallawayas, o ser seria a personificação da hipocrisia e deslealdade. Pode assumir a imagem de um médico, vestido com um saiote negro, detentor de uma enorme habilidade para manipular sua afiada faca, com a qual corta o umbigo da vítima, extraindo a gordura por aquele local. Ao contrário das outras versões, não vende este material. Usa-o como alimento. 

Outra versão, ainda mais aterradora, seria a do Llik'chiri (o mesmo personagem que Nakaq ou Kjarisiri, na língua quêchua). Sairiam em bandos diretamente dos conventos, para uma peregrinação de morte. Em grupos, vestindo uma espécie de túnica branca, faziam questão de serem notados. Vagavam mascarados, balançando sinos, anunciando sua marcha macabra. Buscavam as vítimas de onde extraiam a gordura para vários fins, inclusive para curar a sífilis! Em seus acampamentos, podiam-se ver várias estacas onde espetavam os pedaços dos cadáveres já esquartejados. Não usavam nenhum pó mágico, como os personagens das lendas aymara. O sino representava seu instrumento de persuasão. Com ele, emitiam um som irresistível, que embalava a vítima num sono de morte.

O Eldorado


 
A lenda do Eldorado, que se fundava na crença de uma cidade repleta de ouro, cujo príncipe tinha também o corpo dourado, foi ouvida pelos primeiros conquistadores espanhóis que se fixaram, no século XV e XVI, nas costas da atual Colômbia e Venezuela, então chamada Terra Firme ou Terra Santa. A busca do Eldorado, que levou os europeus até ao Brasil, persistiu até meados do século XVIII. Em 1535, o general Sebastián de Belalcazar, após ter destruído a última resistência dos Incas, no Norte de Lima (na direção de Quito), ouviu de um indígena, seu prisioneiro, a história do Eldorado, uma lenda das tribos ribeirinhas do Orinoco. Reza a lenda que havia uma tribo muito rica, localizada perto da atual Santa Fé de Bogotá (capital da Colômbia), onde viviam os índios Chibcha ou Muisa. Este povo tinha como costume religioso o de untar o corpo do rei, provavelmente quando subia ao trono ou antes de ações guerreiras, com uma substância aderente, talvez resina, sobre a qual era soprado finíssimo pó de ouro. Completamente dourado, o rei dirigia-se para o meio da lagoa Guatavita, numa embarcação, e banhava-se nas águas, depois de ter lançado, para o fundo, joias, vários objetos de ouro e pedras preciosas, como oferendas ao seu deus. Segundo os registos de Oviedo de 1543, os Espanhóis tinham ouvido dos Índios que, todas as noites, o rei dourado se lavava, retirando o ouro do corpo, mas, no dia seguinte, voltava a ser coberto por esse metal precioso.

O mito do Eldorado conquistou de tal forma o imaginário dos séculos XV e XVI que arrastou os Europeus para a busca do tesouro e para a descoberta de novas terras das Índias Ocidentais, topónimo que designava, na época, a América. A referência ao Eldorado fazia mesmo parte das "cartas de prego", ou seja, das cartas com instruções que os comandantes dos navios só abriam fora da barra. Foram muitos os exploradores que procuraram a mítica cidade, a exemplo do espanhol Gonzalo Jimenez de Quesada, em cuja expedição de 1538 fez parte Juan de Castellanos, o autor de História Del Nuevo Reino de Granada, os primeiros escritos sobre o Eldorado. 

A ambição e a curiosidade pelo Eldorado atraíram os Espanhóis até à Amazónia portuguesa. No entanto, as expedições organizadas, como as de Pedro Fernandez de Lugo, Gonzalo Quesada, Gonçalo Pizarro, Pedro de Ursua, em vários locais do Norte da América do Sul, nomeadamente, junto ao rio Orinoco, ao rio Negro, no lago de Guatavita, revelaram-se difíceis e sem sucesso.

Em 1698, descobriu-se as minas de Itaverava, em Minas Gerais, que despertaram a imaginação de vários aventureiros, relançando a busca do Eldorado. Foram encontradas, nessas minas, pedras pretas que, na realidade, eram porções de ouro, conforme se verificava depois de lavadas. Na verdade, essas pedras, que ficaram conhecidas como ouro negro, eram pretas porque estavam cobertas por uma leve camada de óxido de ferro.


UMA LENDA DO SURINAME

A Irmã desconhecida

Um rei tinha doze filhos e queria muito que sua mulher desse a luz uma menina. “Se isso acontecer”, dizia-lhe, “matarei todos esses moleques”. Pouco depois a rainha ficou grávida. O rei precisou partir para uma Guerra, mas ordenou que, se ela tivesse uma filha, devia mandar executar todos os varões.

Assim que o marido virou as costas, a mulher chamou a criançada e falou: “Fujam! Se eu tiver um menino, hastearei uma bandeira branca e vocês poderão voltar. Do contrário, hastearei uma bandeira vermelha, e você deverão ficar longe daqui!”.

Os filhos obedeceram com grande tristeza. Um dia avistaram uma bandeira vermelha e trataram de construir uma cabana no meio da selva. Os anos passaram. Sua Irmã cresceu e sempre queria saber de quem eram os doze baús que havia no palácio, porém sua mãe ficava muda. Até que a princesa perdeu a paciência. Muniu-se de um revolver e disse a rainha: “A primeira bala é para você e a segunda para mim, se não esclarecer o mistério daqueles baús”. Só assim a mãe lhe contou que tinha doze filhos e precisou mandá-los fugir. A moça então pegou o anel do pai e saiu à procura de seus irmãos. Depois de muito caminhar, chegou a cabana construída no meio da selva.

Acontece que seus irmãos haviam jurado matar qualquer mulher que lhes aparecesse pela frente, pois era por causa de uma mulher que estavam exilados. Assim, um deles sempre ficava na cabana quando os outros saiam para caçar. Quando viu a Irmã desconhecida, o rapaz grosseiramente lhe ordenou que se identificasse e dissesse o que queria. A princesa lhe mostrou o anel do pai e com isso revelou sua identidade.

“Esconda-se!”, exclamou o principe. “Do contrário irão matá-la!”

Naquela noite ele pôs treze pratos na mesa, em vez de doze, e os outros perceberam que havia mais uma pessoa na cabana. A princesa corajosamente saiu do esconderijo e lhes apresentou o anel paterno. Esquecendo-se do juramento, os irmãos a abraçaram com muito carinho e lhe pediram que ficasse morando ali na selva. No dia seguinte a Irmã cozinhou para eles, colheu doze botões de rosa e colocou um em cada prato. Quando os rapazes chegaram para jantar, transformaram-se em doze araras e voaram para longe. A princesa saiu para procurá-los e jurou que não pronunciaria uma única palavra enquanto não os encontrasse.

E andou, e andou, até sua roupa virar farrapos. Um príncipe a encontrou em sua caminhada, apaixonou-se por ela e a levou para seu palácio, disposto a torná-la sua mulher. “Essa moça não fala porque é um espírito malígno”, declararam as irmãs do príncipe. Fiel a seu juramento, a princesa não disse uma palavra para se defender e foi condenada a morte. Estava prestes a ser executada quando doze araras saíram voando da selva e a rodearam. “São meus irmãos!”, a princesa exclamou. “Vieram me salvar!”. No mesmo instante as araras reassumiram a forma humana. A princesa provou sua inocência e se casou com o príncipe.




 

 

7 comentários:

  1. Melysande, bela aula do nosso folclore. Aproveito a oportunidade para repassar a mensagem do poeta Mario Quintana: "A amizade é o amor que nunca morre". Feliz dia do amigo, amiga Melysande.

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  2. Hoje é só mais um dia para reafirmar nossa amizade.
    Amigos são jóais raras de infinita beleza e inestimável preço.
    Feliz dia amigo.
    Beijinhos cheios de alegria.
    Lua

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  3. gostei bastante da historia de corpo seco!

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  4. MARAVILHOSO SENSACIONAL... DESEJO SABEDORIA E MUITA SAÚDE. PARABÉNS QUE MARAVILHA ESTE BLOG, ESTE ACESSO. MUITA LUZ

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    1. Muito obrigada Nivaldo. Feliz de te ver no meu blog. Seja sempre bem vindo.

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