sexta-feira, 20 de julho de 2012

FOLCLORE DAS AMÉRICAS - AMÉRICA DO NORTE




Começamos por tentar resumir a mitologia mais barroca de América do Norte, a asteca, centrando-nos unicamente na descrição dos grandes deuses do seu panteão, dada a grande variedade de divindades menores inclusive de outras muitas importadas de religiões que foram assimiladas juntamente com as vitórias territoriais. 

Em princípio, segundo o mito geral asteca, a criação do Universo se deve ao sacrifício de um deus. Seja Ometeotl ("deus duplo"), ou Nanahuatzin, nessa constante sacralização do sacrifício, se transforma (Nanahuatzin se arroja ao fogo) para dar-nos a construção do nosso mundo. Um mundo que também se constrói, por vontade de Ometeotl, a partir do seu sacrifício, engendrando na sua desaparição os quatro Tezcatlipocas. 

Com eles se vão sucedendo as quatro idades. A primeira, quando o primeiro Tezcatlipoca se converte no Sol e faz nascer à humanidade; mas esse mundo termina, devido ao confronto entre os quatro Tezcatlipoca, com a destruição do Universo por Quetzalcóatl através do dilúvio, com uma humanidade transformada nos peixes que habitaram nas águas vindas do céu. Depois se estabelece a idade dos gigantes, mas esta era termina com a queda do céu; na terceira idade, o fogo celestial arrasou a superfície do mundo; na quarta e última idade, o vento arrasou de novo a superfície terrestre e os humanos se transformam em símios.

Após essa quarta idade, no mito nauatl, nascem de novo os homens numa terra também renovada, ao mesmo tempo que os deuses saem do nosso mundo para ir para o dos mortos e deixar-nos viver sem o perigo das suas rivalidades. Naturalmente, há diversas versões do mito da criação, alguma delas com três idades (os homens de argila, os de madeira e os de milho) e outra com cinco idades, mas todas elas coincidem em apontar que o nosso mundo conheceu muitas mutações e que outras nos esperam no final de cada tempo, sob o olhar atento do deus principal, Huitzilopochtl.

OS TEZCATLIPOCA

Também Tezcatlipoca era uma divindade solar e lunar, o sol cálido do estio e a divindade noturna invisível. Agora falamos de um deus singular, um dos rivais Tezcatlipoca, dado que foram quatro os filhos de Ometeotl, cada um com uma das quatro cores simbólicas: branco, vermelho, preto e azul. Para maior complicação da figura divina de Tezcatlipoca, muitas vezes aparece o seu oponente Quetzalcóatl com a mesma caracterização que ele. Tezcatlipoca andava na noite, aterrando os infelizes ou contribuindo para cimentar a fama dos corajosos que mantinham a sua honra perante a terrível presença do deus, que era tão temido como respeitado, dado que a ele também lhe ofereciam  abundantes sacrifícios humanos. 

QUETZALCOATL, O DEUS DO VENTO


A figura de Quetzalcóatl também aparece muito destacada no mito Azteca, porque se trata do deus que se sacrifica pelos humanos para devolver-lhes a terra, entregando-se ele e o seu duplo, o seu nahual, ao reino dos mortos. Quetzalcóatl gozava da simpatia dos seus fiéis, dado que ele era o criador das artes e das indústrias e a divindade encarregada de fazer chegar tudo o que o ser humano tinha a seu favor. Também era tratado como uma divindade temível, dado que se lhe devia sacrificar um belo escravo, comprado quarenta dias antes da festa do deus.

Mas, à parte dos sacrifícios de sangue, tão intimamente unidos com a religião azteca, o bom deus Quetzalcóatl, enfrentado a Tezcatlipoca, que tinha introduzido entre os habitantes da cidade de Tula a maldade e o vício, termina por ter que abandonar a sua própria terra, na qual os povoadores já tinham sofrido o castigo à sua desobediência, para sair ao mar. Embora não sem antes prometer regressar algum dia glorioso, dia que se esperava ativamente, com uma sentinela constante das costas por onde se sabia que, nesse dia grande, Quetzalcóatl regressaria para trazer só o bem ao seu povo. Tal foi o mito, e Hernan Cortês, informado da sua existência, aproveitou a firme crença da povoação azteca para apresentar-se no seu esplendor de cavalheiro conquistador, armado e engalanado, como o navegante mitológico que regressava aos seus domínios, anulando com astúcia qualquer possível resistência que o imponente império podia ter lhe apresentado.

OUTROS DEUSES

Tlaloc, seguidor de uma das divindades pré-clássicas da chuva, o deus da serpente e, muito especialmente, do deus Chac dos maias, é uma das divindades mais antigas do panteão azteca. Tlaloc, como antes tinham feito Cocijo ou Tzahui, é o ser que se ocupa da tutela da água, o deus que pode fazer com que os campos floresçam e a vida possa continuar eternamente.


 Tlaloc era associado com os quatro pontos cardeais e com as quatro cores que os representavam. Morava nas alturas das montanhas, velando pelas nuvens que nelas se formavam e, nos templos, estava ao mesmo nível que o grande Huitzilopochtl. Como é natural, o ritual religioso de Tlaloc exigia o sacrifício de vítimas humanas, mas, talvez pela tremenda necessidade que a povoação tinha de aceder a essa água tão necessária, a exigência multiplicava-se, dado que eram os meninos recém-nascidos os que deviam servir de veículo de satisfação para o deus da chuva. Ao lado de Tlaloc estava Chalchihuitlicue, a deusa do jade e da turquesa, cores que toma a água que os humanos vêem sobre a terra. Era geralmente considerada sua esposa, e ela velava pelos rios e arroios, pelos poços e lagoas, sendo - em definitivo - outra divindade agrícola da fertilidade. 

Chicomecoalt, a irmã de Tlaloc, outra divindade dos campos, amparava o milho, tendo uma especial personificação como deusa do milho que floresce, sob a denominação de Xílonen.

Mas não era a única divindade do milho, o alimento mais importante dos astecas, dado que junto dela está o casal formado por Cinteotl e a sua esposa Xochiquetzal, com os quais velava, por extensão, pelo bom fim de todos os cultivos. Finalmente, a deusa Tlazolteotl, por ter sido esposa de Tlaloc ao princípio, e depois do temível Tezcatlipoca, era a complexa divindade que presidia o amor entre os humanos; a deusa do amor carnal, por uma parte, e que depois se encarregava de ouvir as confissões que os fiéis faziam das suas faltas para vigiar o cumprimento das correspondentes expiações.



 
AO NORTE DO CONTINENTE



Os esquimós converteram-se num grupo individualizado por duas causas: primeiro pela sua origem européia, diante do asiático e minoritariamente polinésico do resto dos povoadores da América, e depois, pelo seu total isolamento geográfico. Dado que se trata de uma civilização muito primitiva, andada no nomadismo pelos imperativos geográficos, dado que a subsistência provém exclusivamente da captura de presas vivas, da pesca e a caça, é completamente lógico que o seu panteão só faça referências a divindades que vivem entre as águas semi-geladas, ou que habitam no céu, aquelas que podem intervir nos fenômenos celestiais.

As forças celestiais que há que cuidar, ou das quais há que proteger-se, começam no casal de irmãos composto pela deusa do Sol e o poderoso deus da Lua. Segundo o mito, os dois irmãos sentiram desde o princípio dos tempos a necessidade de amar-se, e assim o fizeram mais de uma vez na escuridão da longa noite polar, mas o medo de que o seu amor culpado fosse descoberto inquietava-os constantemente, fazendo-os fugir e procurar-se ao mesmo tempo, numa corrida ao redor do firmamento que só cessava quando, rara vez, se uniam num eclipse. Contudo, mantinha-se igualmente o mito de que não era possível o encontro entre os dois irmãos, dado que a deusa do Sol está a uma altura muito maior, numa esfera do céu que o impotente deus da Lua nunca pode alcançar, por muito que corra atrás dela.


DIVINDADES DO MAR


Sedna, uma das encarnações da deusa eterna do mar, é o outro dos grandes mitos esquimós, o mito sobre a superfície do mundo onde vivem. Trata-se da lenda de uma virgem que tutela as águas do mar e todos os seres que nelas vivem. Sedna ouviu da margem a doce voz de um muito atraente e desconhecido jovem, que a chamava da sua embarcação. Sedna se afeiçoou imediatamente por ele, arrojando-se ao mar enlouquecida pelo seu encanto; mas o jovem não era real, pois era apenas um espírito perturbador que queria apoderar-se, sob essa suposta forma humana, do amor e da vontade da ingênua donzela. Ao conhecer Sedna o engano, tentou safar-se daquele espírito que ela julgava malvado, dado que tinha torcido o seu desejo de permanecer toda a sua vida sem desposar homem algum; também o pai da donzela tentou libertá-la daquela posse e lançou-se à sua procura através do mar, até dar com ela e conseguir o seu resgate; mas o raptor também lutou por prevalecer sobre a vontade de pai e filha, lançando-os no meio de um mar que se levantava tempestuoso. Tão perdido se encontrava o pai, que preferiu morrer junto da sua Sedna querida sob as águas para salvar a honra familiar. Mas a filha negava-se a morrer e tratava desesperadamente de agarrar-se à barca. Mas o pai a forçou, cortando-lhe uma e outra vez os dedos da mão com que tentava aferrar-se à vida, até conseguir afundar a sua infeliz e querida Sedna, para libertá-la - com a morte - do engano daquele espírito. Foram desses dedos sacrificados pra preservar a virgindade de Sedna, contam os esquimós, que nasceram as espécies marinhas que lhes forneçam a carne e a gordura para o seu alimento, a pele para o seu vestido e os tendões para armar as suas construções; também se diz que no fundo desse mar vivem para sempre pai e filha, velando pelo mar e por todos os animais que nele se multiplicam para dar vida ao seu povo.

MITOLOGIA DAS TRIBOS DO NORTE

Ao sul dos territórios esquimós, mas no extremo norte da América, entre as tribos da nação Atapascan, contavam-se lendas fragmentares, como a de uma raça de seres sobrenaturais, nascidos entre os mortais e que ainda viviam entre eles, mas que só se exprimiam através dos bruxos. Esta raça se originou de um modo mágico, na névoa das montanhas, entre um grupo de dez irmãos purificados através do fogo que os levou à Terra das Almas, ao qual se uniu uma mulher, a irmã sobrenatural, queimada acidentalmente pelo fogo, para aumentar a espécie dos seres semi-divinos que favoreciam os que se mereciam o seu auxílio. O mesmo povo índio contava que o deus do céu, Sinh, tinha nascido duma pequena concha arrojada pelo mar à praia; que lá foi recolhido e criado por uma boa mulher e que, em prêmio à sua bondade e carinho, a mãe adotiva converteu-se, quando teve lugar a transfiguração do seu filho, em deusa dos ventos favoráveis. Naturalmente, em tais latitudes, os ventos frios do Norte eram por sua vez espíritos malignos e, em contraposição, o deus Sinh, azul como o céu limpo dos dias tranqüilos e a sua boa mãe adotiva, eram os amigáveis espíritos que ajudavam os humanos na sua vida diária. A tribo dos chinook contava as histórias do irônico Corvo azul, uma ave totémica, e a sua irmã Ioi.
O Corvo azul teve um papel muito complicado para interpretar maliciosamente tudo quanto a sua irmã Ioi lhe aconselhava fazer, e ela gostava de contar mentiras. Das histórias sobre este par de corvos, suas andadas com os sobrenaturais e suas aventuras no país dos mortos e no das sombras; de seus erros, suas ousadias e seus contínuos tropeços com outros animais totêmicos, como o castor, o urso preto, a pega, o pato, a foca, etc., emanava a correspondente série de fábulas morais.

A RIQUEZA MITOLÓGICA DOS ALGONQUINOS


Perante os excessivamente frugais Atapascan, a nação Algoquina exibe uma mitologia muito mais rica e extensa, começando pela curiosa figura dual de Gluskap, o astuto deus (o seu nome significa "mentiroso") irmão gêmeo de Malsum, o lobo. Enquanto Gluskap começou a demonstrar a sua bondade criando o sol e a lua, dando forma e vida aos animais da terra, aos peixes das águas, pondo finalmente nesse mundo fértil e próspero os seres humanos para que desfrutassem de tudo isso; pelo contrário, o perverso Malsum criava ao mesmo tempo uma geografia difícil para o homem, cheia de elevadas montanhas e profundos vales, punha as serpentes e as bestas na terra, para que atacassem os homens e os seus animais, e não parava de fazer tudo o que pudesse ser um obstáculo na felicidade humana.

E o perverso Malsum conheceu do seu bom irmão qual era o único modo de matá-lo: ser tocado pela pena duma coruja ou pelo rebento de um junco. Aproveitando o seu sono, Malsum matou Gluskap, mas só por um momento, porque o bom Gluskap voltou imediatamente à vida. Depois, Malsum voltou a tentar o assassínio do irmão, desta vez com um rebento de junco. Mas Gluskap renasceu de novo e de novo, uma e outra vez, até que o bom irmão se fartou da maldade do lobo e o atacou com a raiz de um feto - a maneira mágica de acabar com Malsum - terminando deste modo com a sua incessante e nociva maldade. Gluskap também é o protagonista de uma série de relatos exemplares que vão das fábulas sobre a evidência (como o relato dos quatro índios que lhe fizeram as suas mais ansiadas petições; ou a lição sobre a paciência e a humildade que lhe deu o pequeno Wasis) aos mitos de Gluskap e ao nascimento do Verão que, pela sua astuta vitória, triunfou sobre o inverno.

Outro personagem de primeira fila é a Lontra Sagrada, o caçador, que fez o primeiro "tipi", ou tenda de pele e galhos, e ensinou aos homens como decorá-la com as devidas cores e as exatas formas mágicas.

Também merece ser destacada a lenda do caçador Algon e do seu amor pela Virgem das estrelas, uma filha dos céus que ele amou desde o primeiro momento, quando a viu, recém-chegada do alto na sua mágica cesta de vime, brincando e cantando com as suas companheiras celestiais.
Algon conseguiu aproximar-se dela e capturá-la para fazê-la sua esposa. Mas a Virgem das estrelas, embora amasse o doce Algon, ao qual já tinha dado um filho, não podia suportar a separação dos seus. Empreendeu, com o seu filho nos braços, o voo de regresso às estrelas, para pesar do apaixonado caçador; mas, quando o menino cresceu e se fez adulto, a Virgem das estrelas desceu a terra para procurar Algon e levá-lo com eles para o seu mundo, onde se converteram em pássaros e, desde aquele dia, voam sobre as pradarias intermináveis onde Algon caçava na sua juventude. E assim se podem citar dúzias de belos mitos, como os do deus Sol, ou a versão da Mulher das Penas, ou a sagaz luta de Kutoyis e a Mulher Lutadora. Cada tribo da nação algonquina tem, além disso, as suas próprias histórias e um sem-número de relatos cosmogônicos, quase sempre relacionados com bravos guerreiros ou intrépidos caçadores.

DEUSES E HERÓIS DOS IROQUESES

Os temíveis e sóbrios iroqueses - entre os quais se encontram as famosas tribos guerreiras Mohawk, Cherokee, Hurones e Senecas - à parte desse caudal comum de lendas de animais e espíritos benignos e malignos, se distinguem pelas suas lendas de heróis semi-históricos. Começando com os mais imaginários: Hi'nun, deus do trovão e o seu irmão Vento do Oeste, vencedores dos gigantes de pedra, e chegando aos hipoteticamente reais Atotarho (sangüinário e astuto chefe, poderoso mago) e o primeiro chefe Hiawatha (Hai), da tribo dos Mohawk por adoção, e da tribo dos Onondaga por nascimento. Ele foi o possível precursor, nos inícios do século XVI, da Kayanerenh Kowa (grande aliança) das Cinco Nações. 

Mas Atotarho, o vitorioso e forte chefe Onondaga, também era tão cruel que tinha conseguido atemorizar não só as tribos vizinhas, mas muitos dos seus guerreiros, como foi o caso do próprio Hiawatha. Este, estava farto de tanta dor e de tanto ódio e procurava sem cessar a saída pacífica àquela situação, acabando por propor uma confederação que supusesse a paz para os seus povos e uma arma de dissuasão perante os inimigos.

Hiawatha prosseguiu os seus esforços apesar da oposição de Atotarho, que pressionava contra ele e, saindo do seu povo, procurou refúgio entre os Mohawk, encontrando no seu chefe Dekanewidah o apoio necessário para iniciar a Kayanerenh Kowa. Ofereceu depois ao perigoso rival, o vaidoso Atotarho, a chefia da coligação, contando com que a sua soberba o levaria a aceitar o mandato de paz e vencendo a sua resistência a abandonar para sempre a luta com as outras tribos, como assim se conta que foi.

 
A Cabeça Voadora

Antigamente os seres humanos viviam à mercê de muitos monstros e espíritos malignos. Durante o dia o sol forte afugentava essas criaturas terríveis, mas à noite elas saiam de suas tocas para rondar a terra, espalhando desgraça e horror. A mais assustadora de todas era a Cabeça Voadora. Maior que o mais alto dos homens, provida de asas enormes que lhe permitiam deslocar-se pelos ares com rapidez extraordinária, a Cabeça Voadora se abatia sobre suas presas com irresistível violência. Sempre suja, os cabelos emaranhados, a boca retorcida num rosnado furioso, apavorava qualquer mortal.

Uma noite uma jovem iroquesa estava sentada na casa comunitária de sua tribo, embalando seu bebê, quando de repente todos os que se encontravam ali fugiram. “Não podemos deixar que nossos filhos vivam com medo desse monstro”, disse ela. “Alguém tem que enfrentá-lo”.

A índia corajosa esperou a Cabeça Voadora aparecer na porta da casa e fingiu que estava comendo: com uma forquilha tirava brasas do fogão e as aproximava da boca. “Hummmmm ... Aposto que ninguém nunca provou um quitute tão delicioso!”, exclamava em voz alta, estalando a língua.

A Cabeça Voadora, que observava mas não percebia que na verdade ela jogava as brasas para trás, correu para dentro e de uma bocada só engoliu todas as brasas restantes. A dor insuportável a fez sair correndo mata adentro, numa gritaria tão intensa que a terra tremeu e as árvores perderam as folhas.

Quando os últimos berros se perderam na distância, todo mundo voltou para a casa comunitária e ali encontrou a jovem iroquesa, amamentando calmamente seu bebê. E nunca mais a Cabeça Voadora fez mal a ninguém.


MITOS E LENDAS DOS SIOUX E CADDOAN

Contam as lendas sioux que Ictinike, filho do deus do Sol, tinha ofendido o seu pai e por isso foi expulso das regiões celestiais; era um jovem tão batoteiro e tão sem palavra que foi ele quem ensinou aos homens toda a maldade, até o ponto de ser chamado Pai da Mentira. Para a tribo omaha, Ictinike também tinha ensinado a guerra aos humanos e, por isso mesmo, era considerado como deus dos homens em armas. Dele se contavam fábulas a favor e contra a sua astúcia. era associado com os correspondentes animais totêmicos, como o coelho, o castor, o abutre, a águia, a rata, o martim pescador, o esquilo, etc., e dessas fábulas se extraíam as correspondentes lições morais.

Também os sioux tinham as suas lendas de heróis, como a vingança de Wabaskaha, a história de Pena branca, o matador de gigantes, a história do Coelho e as muito abundantes de espíritos-serpentes: como os vinte homens-serpente, a do monstro-serpente, a da esposa-serpente, etc. Mas a sua cosmogonia se limita a um relato ancestral de um povo subterrâneo, que trepou pelas raízes de umas vinhas até ver o maravilhoso mundo exterior. Ao conhecer-se a notícia, todos trataram de alcançá-lo, mas a raiz cedeu e só a metade chegou ao mundo de fora. Após a morte, os bons poderão chegar àquela povoação submersa e os maus ficaram pelo caminho.

Também não é muito rico o acervo mitológico dos caddoans, um grupo onde se encontra a muito famosa tribo dos Pawnee. Destaca-se a figura de Atius Tiráwa, o grande espírito criador e chefe dos astros e das estrelas, e se contam histórias de animais simbólicos, como a do caçador desposado com a mulher-búfalo para converter-se no herói que assegurou abundante alimento para sempre aos Pawnee; ou a do sábio e bom homem-urso, um jovem que admirava os ursos desde a sua infância mas que, já adulto, foi morto numa emboscada dos seus inimigos sioux, e foi logo ressuscitado e cuidado por uma ursa que reconheceu aquela criatura amiga. Depois, uma vez curado, o jovem regressou para a sua tribo, não sem fazer com que os seus irmãos apreendessem a sabedoria do urso e pudessem seguir o seu exemplo de grande guerreiro. Esse é o dom que a nação Pawnee recorda com a sua dança ritual do urso.

Nuvem Azul e Touro Bravo



Conta uma lenda dos índios sioux que, certa vez, Touro Bravo e Nuvem Azul chegaram de mãos dadas à tenda do velho feiticeiro da tribo e pediram:

- Nós nos amamos e vamos nos casar. Mas nos amamos tanto que queremos um conselho que nos garanta que ficaremos sempre juntos, que nos assegure estar um ao lado do outro até a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho, emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:

- Há o que possa ser feito, ainda que sejam tarefas muito difíceis. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte da aldeia apenas com uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono; lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Somente com uma rede deverás apanhá-la, trazendo-a para mim viva! Os jovens se abraçaram com ternura e logo partiram para cumprir a missão. No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves. O velho tirou-as dos sacos e constatou que eram verdadeiramente formosos exemplares dos animais que ele tinha pedido.

- E agora, o que faremos? Os jovens perguntaram.

- Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres. Eles fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas conseguiram apenas saltar pelo terreno.

Minutos depois, irritadas pela impossibilidade do vôo, as aves arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar. Então o velho disse:

- Jamais se esqueçam do que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados.


Já os peles vermelhas, os índios do Norte, têm uma mitologia muito pobre, circunscrita a histórias míticas e a relatos tradicionais de cada tribo ou nação, aos quais bastou a passagem de duas ou três gerações para confundí-los com a lenda, como é a regra nas culturas que se transmitem oralmente. À parte do Grande Espírito, de Michabo, a Grande lebre, do Amo da respiração, a dualidade Coiote e Kodoyanpe, o Pai Corvo; e de alguns outros relatos da criação, a maior parte da lenda está construída em peças únicas, nas quais se refletem a consecução de umas virtudes surpreendentes para nós, como são a vingança, o engano manhoso, a necessária procura de um inimigo para derrotar, etc., mas faziam parte integrante da sua realidade quotidiana.

UM MITO DO ALASCA
A Alma e o Coração da Baleia

 
Era uma vez um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar.
Exausto de tanto bater as asas, procurou um lugar para descansar, mas não avistou nenhum pedaço de terra no meio de toda aquela água.
"Vou morrer afogado" - suspirou, já sem forças para continuar voando. Nesse exato momento uma enorme baleia subiu à tona, e o corvo, sem pensar duas vezes, mergulhou naquela bocarra aberta.
Foi parar na barriga da baleia, onde, para seu espanto, deparou-se com uma casa muito limpa e confortável, bem iluminada e quentinha.
Uma jovem estava sentada na cama, segurando uma lanterna.
- Fique à vontade - disse ela amavelmente - mas, por favor, nunca toque em minha lanterna.
O corvo, feliz da vida, prometeu que jamais faria tal coisa. A moça parecia inquieta. A todo instante se levantava, ia até a porta e voltava a sentar na cama.
- Algum problema? - o corvo perguntou.
- Não... - ela respondeu - é só a vida... A vida e o ar que se respira.
O corvo estava morrendo de curiosidade. Assim, quando a jovem foi até a porta, resolveu tocar na lanterna para ver o que acontecia. E aconteceu que a moça caiu estatelada na sua frente e a luz se apagou.
O mal estava feito. A casa ficou fria e escura, o cheiro de gordura e sangue deixou o corvo enojado. Inutilmente ele procurou a porta para sair dali e, cada vez mais nervoso, começou a se coçar de tal modo que arrancou todas as penas.
- Agora é que vou morrer congelado - choramingou, tremendo até os ossos.
A moça era a alma da baleia, que a impelia para a porta toda vez que enchia os pulmões de ar.
Seu coração era a lanterna acesa.
Quando o corvo a tocou, a chama se extinguiu. Agora a baleia estava morta e guardava em seu interior o pássaro intrometido. Depois de muito chorar e pensar, o corvo finalmente conseguiu sair das escuras entranhas e sentou no dorso daquele imenso defunto. Ensebado, sujo, depenado, era uma tristíssima figura.
A baleia morta ficou flutuando no mar até que desabou uma tempestade e as ondas a empurraram para a praia. Quando a chuva parou, alguns pescadores saíram para trabalhar e viram a baleia.
O corvo também os viu e se transformou num homenzinho frio e estropiado. Então, em vez de confirmar que se intrometera onde não fora chamado e destruíra algo belo que não conseguira compreender, pôs-se a gritar:
- Eu matei a baleia! Matei a baleia! E assim... se tornou um grande homem entre seus pares.
MITOS DOS ESTADOS UNIDOS
O Barco Terrestre

O rei de um pais distante proclamou certa vez que daria a mão de sua filha a quem construísse um barco capaz de navegar em terra firme.
Três irmãos decidiram tentar a proeza. No dia seguinte, ao nascer do sol, o mais velho foi até a floresta e derrubou uma árvore; mal começou a serrá-la, uma velha lhe perguntou o que ia fazer. “Tábuas”, ele respondeu rudemente. “Pois que assim seja…”, a velha resmungou. Ele se esfalfou o dia inteiro e só conseguiu mesmo fazer tábuas.

Então chegou a vez do irmão do meio, que também se deparou com a velha e lhe disse que ia fazer colheres de pau. “Pois que assim seja…” repetiu ela. O rapaz trabalhou muito e só fez mesmo colheres de pau.

O último a tentar foi Jean, o caçula. Quando a velha o abordou, contou lhe que pretendia construir um barco terrestre. “Boa sorte!”, disse ela.

Ao entardecer, quando Jean estava martelando o último prego, a velha reapareceu. “Só faltam as velas”, ela falou. E, vendo que o jovem a fitava desanimado, sem saber como conseguir tanto pano para as velas, ordenou-lhe: “Volte aqui amanhã com todos os trapos que encontrar”.
No dia seguinte Jean acordou bem cedo e rumou para a floresta, levando uma imensa trouxa. Num segundo a velha transformou os trapos em velas, e o rapaz saiu navegando em terra firme.

No caminho do palácio se deparou com um homem deitado numa fonte seca. “O que está fazendo aí?”, perguntou-lhe. “Estou esperando a fonte se encher de novo, pois bebi toda a água que havia. Meu nome é esponja”, o outro respondeu. “Venha comigo”, Jean o convidou.

Mais adiante encontraram um sujeito lambendo pedras. “Elas faziam parte de um forno e ainda tem gosto de pão. Meu nome é Comilão”, ele explicou. “Venha conosco”, disse Jean.

Os três seguiram viagem e logo avistaram um grandalhão movendo as pás de um moinho com seu sopro. “Meu nome é Soprador”, informou ele. “Venha conosco”, Jean o chamou.

Depois arrumaram mais dois companheiros: Bom-de-Ouvido, um velhote que escutava até o ruído de uma folha caindo, e Relâmpago, um rapaz mais veloz que os coelhos.

Quando Jean se apresentou no palácio, o rei não se mostrou disposto a lhe dar a mão de sua filha; assim, encarregou-o de encontrar um homem capaz de esvaziar todos os barris de sua adega. “Isso é fácil”, pensou Jean, confiando a façanha a Esponja, que a realizou com louvor.

“Agora encontre alguém capaz de devorar cem pratos de comida”, o rei disse a Jean. Comilão cumpriu a tarefa, dando conta até das migalhas.

Por fim Jean teve que encontrar alguém capaz de vencer a princesa numa corrida do palácio até a fonte e da fonte até o palácio. Relâmpago ofereceu seus préstimos e num instante chegou à fonte; vendo que deixara a princesa bem para trás, resolveu se deitar para descansar um pouco e pegou no sono.

Bom-de-ouvido, que ficara com os outros no jardim do palácio, colou a orelha no chão. “O folgado está roncando!”, exclamou. Mais que depressa Soprador encheu a boca de ar e soprou, afastando a princesa da fonte e acordando Relâmpago, que ganhou a corrida. Jean se casou com a princesa e convidou seus cinco companheiros para morar no palácio pelo resto da vida.


O Mito de Estrela Cadente


Numa noite de verão duas jovens contemplavam o céu estrelado, quando Primeira Moça exclamou: “Aquela estrela é a mais brilhante de todas! Eu gostaria de me casar com ela...”.
No dia seguinte estavam apanhando lenha na floresta, quando viram um porco-espinho que escalava velozmente um imenso pinheiro. Primeira moça decidiu pegá-lo, porém, apesar de subir cada vez mais alto, não conseguia alcançá-lo.

“Desca! Desca!”, Segunda Moça gritava, porém ela já não podia ouvi-la.
Quando percebeu que estava no topo da árvore, lá no mundo do céu, Primeira Moça desatou a chorar de medo, pois não se dera conta de que se afastara tanto da terra. Então uma voz lhe disse: “Não chore... Sou Estrela Brilhante, e quero me casar com você”.

Primeira Moça ficou radiante e só não gostou quando o noivo avisou: “Aqui você pode fazer o que quiser, menos arrancar um dos nabos que cultivamos, pois isso provocaria uma desgraça”.

Apesar de viver feliz com seu marido e com o filho que tivera nove meses depois, Primeira Moça estava sempre imaginando o que aconteceria se transgredisse a restrição imposta por Estrela Brilhante. Até que um dia não resistiu mais a curiosidade e arrancou um dos nabos. Com isso abriu um buraco no mundo do céu através do qual avistou a terra lá embaixo e sentiu uma saudade irresistível de sua família e de sua aldeia. Então colheu um grande feixe de capim, teceu uma corda bem comprida e se pôs a descer, com o filho nos braços. No entanto, a corda não era suficientemente comprida para levá-la até o chão, e ela ficou pendurada no vazio, até perder as forças e se despedaçar na terra distante.
Seu filho, que era feito de matéria estrelar, sobreviveu a queda. Uma calhandra que o viu cair carregou-o para seu ninho e o criou junto com seus filhotes, dando-lhe o nome de Estrela Cadente.

O menino cresceu depressa e logo estava correndo o bastante para acompanhar os pássaros em seu vôo. “É uma lastima que ele não tenha asas”, a calhandra suspirava tristemente.
Ao se aproximar o inverno, as aves começaram a se preparar para partir rumo ao Sul, onde não sentiriam frio. Sendo impossivel fazer a pé uma viagem tão longa, Estrela Cadente falou: “Se me arrumarem um arco e flecha, cuidarei de mim mesmo”. As calhandra fizeram-lhe um belo arco e muitas flechas e se despediram dele.
Estrela Cadente resolveu então seguir o curso de um rio e foi ter a aldeia de sua mãe. Logo na entrada encontrou uma velha e lhe disse: “Vovó, estou com sede”.

“Não tenho água, meu filho”, ela respondeu. “O monstro do rio engole todos que vão lá!”.

Com a garganta seca, Estrela Cadente decidiu se arriscar. Pediu a velha seu balde de couro de búfalo e sua concha de chifre de búfalo e foi até o rio. Assim que mergulhou a concha na água, um monstro enorme se ergueu, abriu a bocarra e o engoliu.

Na barriga da criatura o jovem encontrou suas outras vitimas, encolhidas de medo. “Vamos sair daqui”, prometeu-lhes e, fechando o punho, esmurrou o flanco do monstro até abrir um buraco; depois o matou e libertou todos os seus prisioneiros.

De volta a aldeia, conduzindo as vitimas que resgatara, dirigiu-se novamente a velha e falou: “Vovó, estou com fome”.
“Não posso lhe dar nada para comer, meu filho”, ela respondeu. “Sempre que os homens vão caçar, um corvo branco previne os búfalos”.
“Não se preocupe, eu vou resolver isso”, Estrela Cadente declarou, acrescentando: “Só preciso de uma pele de búfalo e de dois corredores bem velozes”.

Ao conseguir o que queria, ordenou aos corredores: “Finjam que atiraram em mim”. Depois, cobriu-se com a pele e foi se juntar ao rebanho de búfalos.

Quando os dois corredores se aproximaram, o corvo branco voou, gritando: “Corram! Os caçadores estão chegando!”. O rebanho fugiu na disparada, e os corredores atiraram suas flechas na direção de Estrela Cadente, que caiu como se estivesse morto.

O corvo branco se pôs então a voar em circulos cada vez mais baixos, dizendo: “Por que foi tão lento?” Por que se deixou atingir?”. Estrela Cadente esperou que ele chegasse bem perto e o agarrou pelas asas. Carregando-o triunfalmente, voltou para a aldeia e entregou o pássaro ao grande chefe, que proclamou: “Vou levar este tagarela para minha cabana, amarrá-lo no fumeiro e deixá-lo lá até morrer defumado”.

A partir desse dia os habitantes da aldeia mataram tantos búfalos quantos precisavam e nunca mais passaram fome. Para demonstrar sua gratidão, construiram uma bela cabana para Estrela Cadente e escolheram a mais bela moça da tribo para ser sua esposa.

E toda noite Estrela Brilhante baixava do mundo do céu e abençoava a aldeia inteira com sua luz.




2 comentários:

  1. gosto de historias, lendas, mitos.

    gosto de seu jeito de ser diferente.

    isso me dá coragem pra seguir pois creio
    que vc tb nao é deste mundo.......rs


    saudade...muita.

    mas tudo logo passa e eu volto.


    beijo

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  2. Será sempre bem vinda. Que tua luzte ilumine sempre. Beijos

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