domingo, 24 de junho de 2012

Deus abençoe os poetas - Mário Quintana



Mario de Miranda Quintana foi um poeta, tradutor e jornalista. É considerado um dos maiores poetas brasileiros do século 20. Nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, situada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul.
Aos 13 anos, em 1919, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre, onde traçou suas primeiras linhas e publicou seus primeiros trabalhos na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos Alunos do Colégio Militar. Aos 17 anos publicou um soneto em jornal de Alegrete, com o pseudônimo JB.
 Em 1925 passa a trabalhar na farmácia de propriedade de seu pai. Nos dois anos seguintes a tristeza marcou a vida do jovem Mario: a perda dos pais. Primeiro sua mãe, em 1926, e no ano seguinte, seu pai. Mas a alegria também não esteve ausente e se mostrou na premiação do concurso de contos do jornal Diário de Notícias de Porto Alegre com A Sétima Passagem e na publicação de um de seus poemas na revista carioca Para Todos, de Alvaro Moreyra. A Revista do Globo e o Correio do Povo publicaram seus versos em 1930, ano em que eclodiu o movimento liderado por Getúlio Vargas e O Estado do Rio Grande é fechado. Quintana partiu para o Rio de Janeiro e tornou-se voluntário do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Seis meses depois retornou à capital gaúcha e reinicia seu trabalho na redação de O Estado do Rio Grande.

Em 1934 a Editora Globo lançou a primeira tradução de Mario. Tratava-se de uma obra de Giovanni Papini, intitulada Palavras e Sangue. A partir daí, seguiu-se uma série de obras francesas traduzidas para a Editora Globo. O poeta foi responsável pelas primeiras traduções no Brasil de obras de autores do quilate de Voltaire, Virginia Woolf, Charles Morgan, Marcel Proust, entre outros. Dois anos depois ele decidiu deixar a Editora Globo e transferir-se para a Livraria do Globo, onde trabalhou com Erico Verissimo, que lembrou de Quintana justamente pela fluência do mesmo na língua francesa. Nesta época seus textos publicados na revista Ibirapuitan chegam ao conhecimento de Monteiro Lobato, que pede ao poeta gaúcho uma nova obra. Quintana escreveu, então, Espelho Mágico, que só foi publicado em 1951, com prefácio de Lobato.

Na década de 40, Quintana foi alvo de elogios dos maiores intelectuais da época e recebeu uma indicação para a Academia Brasileira de Letras, que nunca se concretizou. Sobre isso ele compôs, com seu afamado bom humor, o conhecido Poeminha do Contra.

Em agosto de 1966 o poeta foi homenageado na Academia Brasileira de Letras pelos ilustres Manuel Bandeira e Augusto Meyer. Neste mesmo ano sua obra Antologia Poética recebeu o Prêmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano. No ano seguinte, veio o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Esta homenagem, concedida em 1967, e uma placa de bronze eternizada na praça principal de sua terra natal, Alegrete, no ano seguinte, sempre foram citadas por Mario como motivo de orgulho. Nove anos depois, recebeu a maior condecoração que o Governo do Rio Grande do Sul concede a pessoas que se destacam: a medalha Negrinho do Pastoreio.

Na década de 80 o poeta recebeu diversas honrarias. Primeiro veio o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Mais tarde, em 1981, a reverência veio pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços de Passo Fundo, durante a Jornada de Literatura Sul-rio-grandense, de Passo Fundo.

Em 1982, outra importante homenagem distinguiu o poeta. O título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Oito anos depois, outras duas universidades, a Unicamp, de Campinas (SP), e a Universidade Federal do Rio de Janeiro concederam o mesmo tipo de honraria a Mario Quintana. Mas talvez a mais importante tenha vindo em 1983, quando o Hotel Majestic, onde o poeta morou de 1968 a 1980, passou a chamar-se Casa de Cultura Mario Quintana. A proposta do então deputado Ruy Carlos Ostermann obteve a aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Ao comemorar os 80 anos de Mario Quintana, em 1986, a Editora Globo lançou a coletânea 80 Anos de Poesia. Três anos depois, ele foi eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, pela Academia Nilopolitana de Letras, Centro de Memórias e Dados de Nilópolis e pelo jornal carioca A Voz. E, mesmo com toda a proverbial timidez, as homenagens ao poeta não cessaram até e depois de sua morte, aos 88 anos, em 5 de maio de 1994.
Fonte:  

Poemas de Mário Quintana


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...


Amor

Quando duas pessoas fazem amor
Não estão apenas fazendo amor
Estão dando corda ao relógio do mundo


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...


Quiseste expor teu coração a nu.
E assim, ouvi-lhe todo o amor alheio.
Ah, pobre amigo, nunca saibas tu
Como é ridículo o amor... alheio!


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...



Um comentário:

  1. Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.


    Tenho um caso de amor eterno com Mário.


    Beijo

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