terça-feira, 11 de agosto de 2009

ACARI





Com freqüência recebo a denominação trivial de “interior”; como se isso dissesse tudo sobre mim! Outras observações irônicas e tendenciosas costumam acompanhar o trivial: sou ideal para crianças, aposentados, e pessoas com baixas expectativas ou interesses limitados; não tenho futuro e, em alguns casos, nem passado... Não me importo. Não sou ignorante como imaginam e sei que existe uma miríade de cidades mais interessantes que eu ao redor do mundo. Mas todas essas cidades têm suas próprias particularidades e reconhecemos unanimemente que apenas algumas ocupam ou ocuparam um lugar de destaque na história.
Afinal, que cidade foi mais famosa do que Tróia? Qual obteve mais glória do que Roma? Que capital é mais fascinante que Paris ou atrai mais interesse que Nova York? Qual é mais poderosa que Washington, mais moderna que Tóquio ou mais disputada que Jerusalém? Ainda assim, foi numa cidadezinha de nada chamada Belém que dizem ter nascido o salvador do mundo. Então me desculpem se não acredito que tamanho é documento e não me sinto inferiorizada em minha pequenez bucólica e agradável.
Se colocar meu nome no Google encontrará cento e vinte mil resultados. Sou citada em centenas de blogs e praticamente não apareço em estatísticas de violência ou desastres. Minhas pedras não são esmagadas pelo peso de milhares de carros e meu ar não é poluído pela fumaça de fábricas ou o barulho ensurdecedor das buzinas. Quando a brisa desliza sobre mim, o aroma que traz com ela é o das flores, da boa comida sertaneja fervendo nas panelas e do café coado na hora.
Minhas ruas, por mais vezes que eu merecia, sentiram sobre si os passos e as bênçãos de frei Damião. Minhas praças e calçadas são repletas de encontros de amigos e conhecidos, adeptos da boa conversa e durante as festas e feriados os pés dos ausentes voltam a caminhar sobre mim acompanhados dos ágeis passos de seus filhos. Posso citar os nomes de médicos que acompanham famílias por gerações e pelo menos o nome de um padre tão dedicado a mim que, preocupado com a seca que esturricava minha região, rezava a Deus que enviasse uma chuva tão grande que um único pingo enchesse um balde de água.
E por fim, quando em meu céu puro e azul, em suaves dias de chuva, o arco da aliança divina atravessa o espaço com cores tão vívidas que poderiam estar nas telas de Van Gogh, não posso evitar sentir o amor e as bênçãos de Deus derramando-se sobre mim e, nesse momento, me sinto gigante...